A necessidade de resgatar a memória histórica do Brasil por meio de filmes sobre a ditadura militar ganhou um novo capítulo com o posicionamento público do ator Bruno Gagliasso. Durante o lançamento do documentário-híbrido *Honestino*, dirigido por Aurélio Michiles, o artista contestou a tese de que o cinema nacional satura o público com produções sobre os anos de chumbo. O longa-metragem, que traz Gagliasso no papel do líder estudantil assassinado pelo regime em 1973, entra em cartaz nesta quinta-feira (13) em 18 cidades brasileiras, reacendendo debates sobre o apagamento do passado e a carência de registros audiovisuais da época.
- Escassez de produções: O cinema brasileiro produziu apenas cerca de 30 longas de ficção sobre o regime autoritário, enquanto a Argentina ultrapassou a marca de 100 obras.
- Estreia nacional: O documentário-híbrido Honestino estreia em 18 cidades, trazendo Bruno Gagliasso no papel do líder estudantil sequestrado e morto em 1973.
- Desafio de arquivo: A escassez de imagens da época, causada pelo cuidado dos estudantes em não serem identificados pela repressão, exigiu uma abordagem artística inovadora com atores.
O déficit do cinema nacional em retratar a ditadura militar
A comparação com outras nações sul-americanas expõe a timidez do Brasil em enfrentar seu próprio passado nas telas. De acordo com o produtor Nilson Rodrigues, o mercado brasileiro produziu muito pouco em termos de ficção histórica sobre o período que se estendeu de 1964 a 1985. “Nós fizemos muito pouco. Se nós fizemos cerca de 30 filmes de ficção sobre a ditadura no Brasil, a Argentina fez mais de 100”, comparou o produtor durante coletiva de imprensa realizada em Brasília.
A disparidade reflete como diferentes sociedades lidaram com os processos de justiça de transição. Na Argentina, o julgamento das juntas militares logo após o fim do regime impulsionou uma cultura de memória ativa. No Brasil, a Lei de Anistia de 1979 acabou por dificultar a punição de torturadores e gerou um véu de silêncio que se estende até as produções culturais.
Gagliasso foi enfático ao defender que o país precisa de mais narrativas sobre esse período sombrio. “Nunca vai ser o suficiente. Eu acho que quem fala isso (que o Brasil produz muito sobre ditadura) não vê o nosso cinema. A gente faz de tudo. Esse período é (também) a nossa história”, declarou o ator ao ser questionado sobre o tema.
O desafio de filmar onde a repressão impôs o silêncio
Reconstruir a trajetória de Honestino Guimarães exigiu do diretor Aurélio Michiles uma solução artística para contornar a falta de arquivos visuais. Durante os anos de maior repressão, as lideranças do movimento estudantil adotavam medidas rígidas de segurança para evitar prisões e torturas.
Conforme explicou Michiles, os próprios militantes exigiam que assembleias e protestos de rua não fossem registrados em fotos ou rolos de filme. “Os arquivos desse período são raros para que a repressão não recorresse a imagens e chegasse aos manifestantes”, revelou o cineasta.
Para superar essa lacuna histórica, o diretor optou por um formato híbrido, mesclando trechos documentais com recriações dramáticas interpretadas por atores. Uma das raras fontes visuais autênticas utilizadas na obra foi um registro da invasão militar à Universidade de Brasília (UnB) em 1968, gravado clandestinamente pelo então estudante e hoje cineasta Hermano Penna, pouco antes da promulgação do AI-5 (Ato Institucional Número 5), o decreto que endureceu a ditadura ao suspender garantias constitucionais. No depoimento de Michiles, a gravação de Penna “é um registro primoroso, feito por um aluno, (hoje cineasta) Hermano Penna, que é uma pérola, um registro que mostra exatamente como se comportava a repressão naquela época, espancando alunos e professores”.
Quem foi Honestino Guimarães?
Nascido em Itaberaí (GO), Honestino Guimarães transferiu-se para a capital federal onde ingressou no curso de geologia da UnB. Ele se tornou uma das vozes mais ativas na defesa do ensino público e gratuito, assumindo a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE) em um momento em que a entidade operava na total clandestinidade. Preso diversas vezes por seu ativismo, Honestino desapareceu em 1973, aos 26 anos de idade, após ser sequestrado por agentes do Estado no Rio de Janeiro. Sua morte só foi oficialmente reconhecida pelo Estado brasileiro décadas depois.
A semelhança física de Bruno Gagliasso com o líder estudantil emocionou os familiares do ativista durante o processo de preparação. Para o ator, dar vida ao personagem foi um processo de forte impacto pessoal. “O Honestino está dentro de todo mundo que luta por justiça, igualdade e democracia. Eu, como ator e ser humano, entrei de cabeça e de peito aberto por isso”, afirmou.
O desconhecimento generalizado sobre figuras como Honestino é visto por Gagliasso como uma falha na educação histórica do país. “Conhecer a nossa história é de fato fazer algo pelo mundo. É não deixar ser apagada. Eu não conhecia a história e é uma vergonha. Eu quero que meus filhos saibam quem foi Honestino Guimarães”, concluiu o protagonista.
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Perguntas Frequentes
Por que o Brasil tem menos filmes sobre a ditadura militar do que a Argentina?
A diferença decorre dos processos políticos de cada país. A Argentina realizou julgamentos históricos imediatos contra os líderes de sua ditadura militar, o que estimulou o debate público e a produção cultural. No Brasil, a transição pactuada e a vigência da Lei de Anistia abafaram os debates públicos, refletindo-se em uma menor quantidade de produções cinematográficas sobre o tema.
Onde assistir ao documentário Honestino?
O filme-documentário dirigido por Aurélio Michiles estreia nesta quinta-feira (13) em salas de cinema selecionadas de 18 cidades brasileiras. Os exibidores locais devem ser consultados para verificar horários e salas disponíveis.
Por que existem poucas imagens reais de Honestino Guimarães?
Durante os anos mais severos da ditadura militar, os movimentos estudantis evitavam registrar assembleias e atos públicos em fotografias ou vídeos. Essa era uma tática de sobrevivência para impedir que os órgãos de inteligência e repressão do governo identificassem, localizassem e prendessem os militantes.
