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Déficit primário do setor público recua para R$ 10 bilhões em agosto

Por Rafael Sampaio | Publicado em 30/09/2026 às 14:32
déficit primário
José Cruz/Agência Brasil/Arquivo
📖 Leitura: 9 Min

Uma redução substancial no rombo das contas públicas nacionais sinalizou alívio para a gestão fiscal, impulsionada pelo desempenho das gestões regionais e das companhias estatais. O setor público consolidado registrou um déficit primário de R$ 10 bilhões no mês de agosto, apresentando uma trajetória de melhora em comparação ao saldo negativo do mesmo período do ano anterior.

Resumo rápido:

  • O déficit primário caiu para R$ 10 bilhões em agosto, superando o resultado de 2025.
  • Despesas com juros somaram R$ 105,9 bilhões, elevando o rombo nominal para R$ 115,9 bilhões.
  • A Dívida Bruta alcançou 82,9% do PIB, registrando R$ 11,1 trilhões no período.

Trajetória das contas públicas e o rombo fiscal

O déficit primário consolidado reflete o saldo entre as receitas e as despesas do Estado, excluindo do cálculo os compromissos financeiros com o pagamento de juros da dívida. Quando as receitas tributárias não cobrem os gastos correntes e investimentos, a União e demais entes precisam emitir títulos ou recorrer ao endividamento para honrar suas obrigações estruturais.

No comparativo com o mesmo mês do exercício de 2025 — momento em que o déficit atingiu a marca de R$ 17,3 bilhões —, a medição divulgada pelo Banco Central (BC) demonstra uma retração nas perdas. O desempenho mensal foi heterogêneo entre os níveis de governo: enquanto a administração central amargou um resultado negativo de R$ 14,7 bilhões (englobando Tesouro Nacional, Previdência Social e autoridade monetária), os governos regionais entregaram um superávit de R$ 2,7 bilhões, acompanhados pelo saldo positivo de R$ 2 bilhões das empresas estatais.

Ao observar a janela de 12 meses finalizada em agosto, o saldo negativo acumulado situou-se em R$ 82,1 bilhões, valor correspondente a 0,62% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual consolida uma ligeira melhora em relação ao encerramento do primeiro semestre, quando o indicador registrava 0,06 ponto percentual a mais de déficit.

O impacto dos juros nominais no resultado nominal

A elevação no custo do crédito e a oscilação do mercado cambial expandiram os gastos com juros nominais, deteriorando o resultado nominal do setor público. O valor destinado à cobertura dos juros da dívida cresceu substancialmente em agosto, somando R$ 105,9 bilhões frente aos R$ 74,3 bilhões apurados no mesmo mês do ano anterior.

Essa variação negativa decorre, em grande parte, das operações financeiras de proteção cambial executadas pela autoridade monetária. As operações de *swap* cambial — que funcionam como uma troca de rendimentos entre taxas de juros internas e a variação do dólar — sofreram uma forte inversão de desempenho. O mecanismo passou de um ganho líquido de R$ 19,9 bilhões em agosto de 2025 para um prejuízo de R$ 9,3 bilhões no período avaliado.

Indicador Fiscal Agosto / Período Atual Parâmetro de Comparação
Déficit Primário Mensal R$ 10,0 bilhões R$ 17,3 bilhões (mesmo mês em 2025)
Déficit Primário (12 meses) R$ 82,1 bilhões (0,62% do PIB) Queda de 0,06 p.p. sobre o 1º semestre
Despesas com Juros Nominais R$ 105,9 bilhões R$ 74,3 bilhões (mesmo mês em 2025)
Déficit Nominal Mensal R$ 115,9 bilhões Inclui saldo primário e juros
Déficit Nominal (12 meses) R$ 1,264 trilhão (9,48% do PIB) Alta de 0,12 p.p. ante o mês anterior
Dívida Bruta (DBGG) R$ 11,1 trilhões (82,9% do PIB) Avanço de 0,3 p.p. sobre julho

Com o acréscimo das despesas de juros, que chegaram ao patamar expressivo de R$ 1,182 trilhão no acumulado de 12 meses (equivalente a 8,86% do PIB), o resultado nominal da nação fechou o mês com um déficit de R$ 115,9 bilhões. No horizonte anualizado, a métrica nominal alcançou a cifra de R$ 1,264 trilhão, atingindo 9,48% do PIB — expansão de 0,12 ponto percentual na comparação direta com o mês imediatamente anterior.

Como funciona a apuração das estatísticas fiscais do Banco Central

A apuração do déficit primário e do resultado nominal segue metodologias internacionais de estatísticas de finanças públicas, utilizando o conceito de “abaixo da linha”. Essa abordagem calcula as necessidades de financiamento do setor público a partir da variação do endividamento líquido, e não pelo fluxo direto de entradas e saídas de caixa dos ministérios.

O Banco Central consolida as informações enviadas pelo Tesouro Nacional, pela Previdência Social, pelas secretarias estaduais e municipais de fazenda e pelas companhias estatais não financeiras. Ao cruzar a movimentação bancária com a emissão de títulos públicos, o órgão identifica a real variação no estoque de recursos estatais, permitindo mapear se o Estado está conseguindo honrar seus gastos ou se depende de maior endividamento no mercado financeiro.

Evolução da dívida pública e endividamento do governo

O endividamento público manteve trajetória ascendente impulsionado pela incorporação contínua de juros nominais e pelas oscilações do câmbio. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) — indicador que abrange a Previdência Social e as esferas federal, estadual e municipal — subiu para R$ 11,1 trilhões, situando-se em 82,9% do PIB.

O avanço mensal da DBGG representou 0,3 ponto percentual a mais em relação a julho. A evolução do indicador reflete diretamente a acumulação dos encargos financeiros sobre os títulos emitidos, além do impacto derivado das flutuações das moedas estrangeiras no passivo público. No período que abrange o acumulado do ano, a Dívida Bruta registrou um crescimento acumulado de 4,2 pontos percentuais do PIB.

Por sua vez, a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) — que subtrai os ativos e créditos do governo do total de débitos — expandiu-se para R$ 9,2 trilhões, o correspondente a 69,3% do PIB. O indicador apresentou uma elevação de 0,1 ponto percentual na comparação mensal, pressionado simultaneamente pelo endividamento por juros e pelo déficit primário apurado nas contas do país.

Guia de acompanhamento: como entender o impacto do déficit na vida prática

O saldo das contas públicas influencia diretamente a inflação, o custo do crédito para os consumidores e os investimentos em serviços básicos. Compreender a mecânica do déficit primário permite antecipar movimentos econômicos que afetam a renda familiar:

1. Acompanhamento da Taxa Básica de Juros: Déficits elevados aumentam a percepção de risco fiscal pelos investidores. Isso pressiona a autoridade monetária a manter os juros elevados para conter a inflação, encarecendo empréstimos e financiamentos imobiliários.
2. Monitoramento do Orçamento do Consumidor: A necessidade de equilibrar as contas públicas frequentemente leva o governo a ajustar tributos ou rever isenções fiscais, elevando o custo de produtos e serviços no mercado interno.
3. Avaliação dos Investimentos Públicos: Se a despesa com juros nominais consome uma parcela substancial da renda nacional, sobra menos margem orçamentária para obras de infraestrutura, saúde e educação.
4. Impacto no Câmbio e Preços Importados: A volatilidade gerada por dúvidas sobre a capacidade de pagamento do Estado afeta a cotação das moedas estrangeiras, influenciando o preço de insumos importados e combustíveis.

O desafio estrutural além do saldo mensal

O recuo no déficit primário em relação ao ano passado demonstra um esforço contínuo das contas subnacionais e das empresas estatais em conter gastos e elevar arrecadações. No entanto, a análise do panorama fiscal revela que a consolidação de uma trajetória sustentável exige mais do que equilíbrios conjunturais de curto prazo.

A distância entre um resultado primário com leve melhora e um resultado nominal severamente pressionado pela conta dos juros escancara a dependência estrutural da economia em relação às taxas de juros e aos instrumentos de proteção cambial. Sem uma ancoragem rígida da Dívida Bruta e um controle rigoroso sobre o crescimento das despesas obrigatórias, os ganhos operacionais obtidos na gestão diária correm o risco de serem absorvidos pelos custos de rolagem do endividamento público.

Perguntas Frequentes

O que é o déficit primário?

O déficit primário é a diferença negativa entre o total de receitas e o total de despesas do setor público, excluindo da conta as despesas com os juros da dívida pública.

Qual a diferença entre déficit primário e déficit nominal?

O déficit primário avalia apenas o saldo operacional das contas públicas, sem considerar o serviço da dívida. Já o resultado nominal abrange o déficit primário acrescido do valor total gasto com o pagamento dos juros nominais da dívida pública.

Por que a dívida pública continua subindo mesmo com a melhora no déficit?

A dívida pública sobe porque, além do saldo primário, a conta final incorpora as despesas com juros nominais e as variações cambiais. Quando os juros continuam altos, o estoque total da dívida cresce mesmo se o país reduzir as despesas operacionais correntes.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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