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A história da cidade baiana que submergiu para dar lugar a Sobradinho

Casa Nova, Bahia
Por Rafael Sampaio | Atualizado em 02/08/2026 às 03:19
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Reprodução / Divulgação
📖 Leitura: 5 Min🕒 Publicado: 02/08/2026 às 03:19🔄 Última Atualização: 02/08/2026 às 03:20

A antiga sede do município de Casa Nova, no norte da Bahia, foi totalmente inundada na década de 1970 para a formação do lago artificial da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, um dos maiores projetos de infraestrutura do regime militar executado pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf).

O gigantismo de Sobradinho e a promessa energética

O projeto da Usina Hidrelétrica de Sobradinho nasceu da necessidade de regularizar a vazão do rio São Francisco para a geração de energia em larga escala no Nordeste brasileiro. A barragem, concebida na década de 1970, criou um reservatório colossal com capacidade para armazenar mais de 34 bilhões de metros cúbicos de água, espalhados por uma área superior a 4 mil quilômetros quadrados.

A obra grandiosa alterou drasticamente a geografia da região submédia do São Francisco. Além de Casa Nova, outras sedes municipais e localidades vizinhas, como Remanso, Sento Sé e Pilão Arcado, precisaram ser redimensionadas ou totalmente reconstruídas em áreas mais altas para viabilizar o represamento.

A promessa oficial era de modernização, segurança contra as secas cíclicas e integração econômica regional por meio da oferta de energia firme. Contudo, o custo social imediato recaiu sobre dezenas de milhares de ribeirinhos que viviam tradicionalmente da agricultura de vazante e da pesca artesanal nas margens do Velho Chico.

Reminiscências e o cotidiano antes do dilúvio

Antes do enchimento do lago, a antiga Casa Nova era uma comunidade ribeirinha consolidada, com economia baseada na pecuária extensiva, na agricultura irrigada pelas cheias naturais do rio e no comércio fluvial. A sede urbana abrigava edificações históricas, igrejas seculares, praças arborizadas e um modo de vida profundamente integrado às dinâmicas ecológicas e culturais do São Francisco.

O cotidiano dos moradores foi profundamente alterado com o avanço inexorável das obras da barragem. Famílias inteiras viram suas terras ancestrais, propriedades agrícolas e lares se prepararem para o esquecimento subaquático, gerando um período de intensa apreensão e luto coletivo entre a população local.

Principais impactos socioeconômicos e geográficos registrados no processo:

  • Deslocamento forçado de dezenas de milhares de habitantes da região afetada pelo lago.
  • Perda de extensas áreas de terras férteis de vazante, fundamentais para a subsistência local.
  • Submersão total da antiga sede urbana do município de Casa Nova e de povoados adjacentes.
  • Reassentamento populacional planejado pela Chesf em novas áreas designadas como “terra firme”.

O êxodo forçado e a resistência na década de 1970

O processo de desapropriação conduzido pela Chesf durante a construção de Sobradinho foi marcado por tensões políticas, sociais e jurídicas. Os moradores locais, organizados em movimentos de resistência e apoiados por setores da Igreja Católica, exigiam justas indenizações, terras equivalentes em qualidade e infraestrutura adequada nos locais de destino.

A resistência culminou em mobilizações populares que entraram para a história dos movimentos sociais do Nordeste brasileiro. Apesar dos protestos e das negociações prolongadas, o enchimento do reservatório prosseguiu conforme o cronograma oficial do governo federal, obrigando o êxodo definitivo da população para a nova área urbana planejada.

A nova Casa Nova e os desafios da reconstrução

A construção da chamada “Nova Casa Nova” representou um marco de engenharia urbana e planejamento estatal no interior baiano. A nova cidade foi erguida em terra firme, a quilômetros de distância do leito original do rio São Francisco, projetada com traçado geométrico ortogonal, ruas amplas e infraestrutura básica para abrigar a população desalojada.

A transição, no entanto, impôs desafios complexos de adaptação cultural e econômica. Longe do contato direto com as margens tradicionais do rio, os antigos moradores precisaram reinventar suas atividades produtivas, enfrentando dificuldades iniciais com a nova tipologia urbana e a distância física do corpo d’água que sustentava suas identidades.

Legado socioeconômico e o turismo no lago

Décadas após a formação do reservatório, o lago de Sobradinho consolidou-se como um eixo vital para a economia regional, sustentando polos de fruticultura irrigada de exportação nos municípios circundantes, além de garantir a segurança hídrica e a geração de energia para o Sistema Interligado Nacional.

Por outro lado, o patrimônio histórico soterrado continua vivo na memória coletiva dos antigos habitantes e de seus descendentes. Em períodos de estiagem severa, quando o nível do reservatório baixa consideravelmente, ruínas de construções da antiga Casa Nova voltam a emergir, atraindo pesquisadores, jornalistas e turistas interessados na história do São Francisco.

Perguntas Frequentes

Por que a antiga cidade de Casa Nova foi submersa?

A cidade foi inundada na década de 1970 para permitir a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, construída pela Chesf no rio São Francisco.

Quantas pessoas foram afetadas pelo enchimento do lago de Sobradinho?

Dezenas de milhares de moradores de Casa Nova e de outros municípios ribeirinhos, como Sento Sé, Remanso e Pilão Arcado, foram deslocados de suas terras originais.

É possível ver as ruínas da cidade antiga atualmente?

Sim. Em períodos de forte seca e consequente baixa no nível das águas do lago, estruturas e ruínas da antiga sede urbana de Casa Nova tornam-se visíveis na superfície.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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