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Nova composição do Congresso acende alerta para o futuro da agenda ambiental

Por Rafael Sampaio | Publicado em 07/10/2026 às 12:04
agenda ambiental
Fabíola Sinimbú /Agência Brasil
📖 Leitura: 7 Min

Sete em cada dez parlamentares que vão compor a 58ª Legislatura, com início previsto para o ano de 2027, atuarão distantes das pautas voltadas à preservação do clima e dos biomas brasileiros. A constatação integra uma ampla auditoria realizada pelo Observatório do Clima, que mediu o índice de convergência dos congressistas eleitos com as demandas socioambientais. A nova configuração das Casas Legislativas federais projeta um cenário desafiador para a proteção dos recursos naturais e para o cumprimento de metas climáticas internacionais assumidas pelo país.

Resumo rápido:

  • Maioria dos novos parlamentares apresenta baixa afinidade com pautas climáticas e ambientais.
  • Estudo aponta riscos de retrocessos legislativos e enfraquecimento de órgãos de proteção.
  • Crescimento de bancadas de extrema direita influenciou diretamente o índice de convergência.

Metodologia de Avaliação e Indicadores de Convergência

A avaliação técnica desenvolvida considera faixas de alinhamento para mensurar a atuação legislativa frente às questões do meio ambiente. A metodologia adotada pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade classifica a conduta dos parlamentares em quatro categorias distintas, que variam desde o engajamento profundo até a oposição declarada às pautas de conservação ecológica e adaptação climática das cidades.

O levantamento revela que 68,9% do total de cadeiras no Congresso Nacional concentram-se nas faixas de convergência baixa ou muito baixa. Especificamente, a faixa muito baixa agrupa 201 congressistas, o equivalente a 33,8% do total, enquanto outros 208 parlamentares, representando 35%, situam-se na faixa baixa. Em contrapartida, o grupo alinhado às questões ecológicas resume-se a 52 nomes na faixa boa, o que corresponde a 8,75%, e 133 parlamentares na faixa muito boa, atingindo 22,4%.

Faixa de Alinhamento Percentual de Convergência Número de Parlamentares
Muito Baixa 0 a 25% 201 (33,8%)
Baixa 26 a 50% 208 (35%)
Boa 51 a 69% 52 (8,75%)
Muito Boa 70 a 100% 133 (22,4%)

O Cenário Político e a Ascensão de Partidos Conservadores

A consolidação de um parlamento menos propício às discussões ecológicas decorre diretamente da dinâmica eleitoral recente e do avanço de legendas com posicionamentos tradicionais contrários a regulamentações ambientais restritivas. A expansão expressiva de siglas de extrema direita nas duas Casas legislativas alterou de forma significativa o equilíbrio de forças políticas voltadas para o setor produtivo primário e para o uso do solo.

Como exemplo desse movimento partidário, o Partido Liberal (PL) registrou um salto expressivo em sua representação institucional. A legenda passou de 15 para 28 cadeiras, alcançando 34,6% do total no Senado, e ampliou sua bancada na Câmara dos Deputados de 98 para 121 parlamentares, o que representa 23,6% da Casa. Esse rearranjo partidário consolida um bloco de sustentação política que historicamente prioriza pautas econômicas desvinculadas de exigências socioambientais rigorosas.

Desdobramentos Práticos e Riscos Institucionais

O distanciamento do poder legislativo em relação à pauta climática gera apreensão entre especialistas e entidades da sociedade civil organizada. A principal preocupação reside na possibilidade concreta de enfraquecimento das estruturas de fiscalização e no avanço de projetos de lei que possam flexibilizar o licenciamento de atividades potencialmente poluidoras ou reduzir áreas protegidas.

Na avaliação de Suely Araújo, que atua como coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, “este quadro evidencia quatro anos de muito esforço para aqueles que atuam em clima e meio ambiente, e muita preocupação tanto com graves retrocessos quanto com as terríveis consequências disso tudo para a crise climática”. A especialista destaca que o cenário coloca em risco a proteção de biomas essenciais e favorece medidas como a anistia a ocupações irregulares de terras públicas.

Radiografia Específica das Casas Legislativas

O descolamento entre a atividade parlamentar e as exigências científicas de preservação manifesta-se de maneiras distintas tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, exigindo análises pormenorizadas sobre o comportamento de cada uma das instâncias de deliberação.

No Senado Federal, a situação de distanciamento atinge patamares ainda mais elevados. O índice combinado de baixo ou muito baixo alinhamento chega a 79%, o que significa que 64 dos 81 senadores que assumirão mandatos na próxima legislatura demonstram pouca ou nenhuma afinidade com iniciativas de conservação e transição energética. Apenas 17 senadores, o equivalente a 21%, encontram-se nas faixas de convergência positiva, sendo 12 na faixa boa e apenas 5 na faixa muito boa. Na comparação com a legislatura anterior, o Senado registrou um agravamento nesse indicador, visto que o grupo de oposição ou indiferença à pauta ambiental era de 58 parlamentares, o que representava 71,6%.

Na Câmara dos Deputados, a proporção de parlamentares distantes da pauta ambiental atinge 67,3%, somando 345 deputadas e deputados federais classificados nas faixas de menor convergência. Por outro lado, o grupo favorável distribui-se entre 40 parlamentares na faixa boa, representando 7,8%, e 128 deputados na faixa muito boa, alcançando 25% do total da Casa baixa.

Compreendendo o Índice de Convergência Ambiental

O índice de convergência ambiental funciona como um termômetro analítico que cruza o histórico de votações, declarações públicas e a proposição de projetos de lei por parte de deputados e senadores. A ferramenta utiliza dados consolidados de plataformas institucionais, como o Farol Verde do Instituto Democracia e Sustentabilidade, para mapear o comportamento legislativo em temas espinhosos, como desmatamento, transição energética, demarcação de terras indígenas e regulação de emissões de gases de efeito estufa.

Na prática, parlamentares com pontuação baixa costumam votar sistematicamente a favor de projetos que reduzem o escopo do licenciamento ambiental, enquanto aqueles posicionados nas faixas superiores defendem a ampliação de áreas conservadas e a responsabilização climática corporativa. Essa polarização reflete visões de mundo divergentes sobre o modelo de desenvolvimento econômico ideal para o país nas próximas décadas.

Os Desafios Estruturais da Governança Climática

O diagnóstico apresentado pelo Observatório do Clima transcende a simples contagem de votos e revela uma fratura profunda entre as demandas científicas globais e a representação política institucional brasileira. Enquanto a comunidade internacional e os dados meteorológicos apontam para a urgência de medidas drásticas de mitigação das mudanças climáticas, o Congresso Nacional caminha em direção oposta, ancorado em uma base conservadora que enxerga as salvaguardas ambientais como entraves ao crescimento econômico. Esse descompasso sinaliza que o enfrentamento das crises ecológicas nos próximos anos dependerá quase exclusivamente do ativismo judicial, da pressão internacional e da atuação de órgãos do Executivo, transformando o Legislativo em um permanente campo de contenção de danos e barreiras regulatórias.

Perguntas Frequentes

O que mede o índice de convergência ambiental?

O índice avalia o alinhamento da atuação, dos votos e das propostas legislativas de deputados e senadores com as pautas de preservação do meio ambiente e combate às mudanças climáticas.

Quais são as faixas utilizadas na metodologia do estudo?

A classificação divide os parlamentares em quatro faixas percentuais: muito baixa (0 a 25%), baixa (26 a 50%), boa (51 a 69%) e muito boa (70 a 100%).

Por que o novo Congresso apresenta piora na pauta ambiental?

O estudo aponta que o principal fator foi o crescimento expressivo de partidos de extrema direita e legendas com histórico de alinhamento desfavorável às regulamentações ecológicas nas duas Casas.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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