A necessidade de mobilizar US$ 1 bilhão diários até 2030 para conter a crise global dos solos coloca a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) no centro das atenções mundiais. O evento, que ocorre em Ulaanbaatar, na Mongólia, busca reverter décadas de degradação que ameaçam a segurança alimentar e hídrica de 196 nações.
Resumo rápido:
- Representantes de 196 países debatem estratégias para deter a degradação da terra e a desertificação global.
- A falta de financiamento e a ausência de um tratado vinculante sobre secas são os maiores obstáculos.
- Brasil busca recuperar biomas como a Caatinga, enquanto o mundo foca em planos nacionais de resiliência.
O que está em jogo na Mongólia
A COP17 é o fórum decisivo para definir metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN). Enquanto conferências anteriores focaram em diagnósticos, esta edição exige a apresentação de relatórios concretos sobre a estabilização da qualidade dos solos, elemento central para a sobrevivência de populações tradicionais e o desenvolvimento econômico.
O impacto prático desta conferência atravessa fronteiras. Quando o solo perde sua integridade, a capacidade de retenção de água cai drasticamente, exacerbando desastres como a seca severa que, em 2023, atingiu níveis recordes em Manaus, deixando o leito do rio Igarapé Tarumã-açu exposto. A conferência busca, portanto, transitar do plano teórico para a governança prática.
O desafio do financiamento e a iniciativa privada
O financiamento é o principal entrave para a restauração de ecossistemas degradados em escala global. Segundo Louise Baker, diretora-gerente do Mecanismo Global da UNCCD, o aporte financeiro atual é insuficiente, sendo necessário um investimento massivo de US$ 1 bilhão por dia até 2030 para cumprir as metas da Convenção.
Para suprir essa lacuna, a estratégia é atrair o setor privado. Indústrias como a farmacêutica, a de cosméticos e a de alimentos dependem diretamente de matérias-primas provenientes de terras saudáveis. A proposta é que essas empresas enxerguem a restauração não como um custo, mas como uma estratégia de mitigação de risco e garantia de suprimento futuro. A articulação entre as convenções da ONU — Clima, Biodiversidade e Desertificação — é vista como um passo essencial para unificar essas fontes de recursos.
Comparativo de metas e indicadores
Abaixo, detalhamos os pontos de atenção monitorados nesta rodada de negociações:
| Indicador | Status Atual | Objetivo Principal |
|---|---|---|
| Planos Nacionais de Seca | 70+ países | Universalização das estratégias |
| Financiamento diário | Abaixo da meta | US$ 1 bilhão/dia até 2030 |
| Instrumento de Secas | Em negociação | Protocolo juridicamente vinculante |
| Metas de LDN | Em fase de reporte | Estabilidade ou avanço da qualidade do solo |
A governança das secas e o papel do Brasil
A criação de um instrumento internacional que regule as secas é o ponto mais sensível da COP17. Desde a COP16 em Riad, a resistência de países desenvolvidos em aceitar um protocolo juridicamente vinculante tem travado o progresso. A secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, reforça que o sucesso depende da implementação prática dos planos nacionais, que cresceram significativamente desde 2013.
Para o Brasil, o foco regional é a Caatinga, bioma que enfrenta ameaças severas de desertificação. A recuperação desses territórios não é apenas uma questão ambiental, mas de sobrevivência social para as comunidades que dependem do manejo da terra. A expectativa é que o país utilize o fórum para validar novas técnicas de recuperação, alinhando-se aos relatórios globais que serão lançados durante o evento, como o *The Drying Planet – Drought in Numbers 2026*.
Guia prático: Como a sociedade civil pode acompanhar
Para o cidadão interessado, a participação social é um dos pilares reforçados nesta conferência. O fortalecimento de grupos de juventude, gênero e povos indígenas visa garantir que as decisões de cúpula ecoem nos territórios locais.
1. Monitore os relatórios: Acesse o site da UNCCD para conferir o *Global Land Outlook 3*, que traz métricas essenciais sobre a saúde da terra.
2. Acompanhe as metas locais: Verifique os planos de combate à seca do seu estado, que devem estar alinhados às diretrizes da convenção.
3. Pressione por transparência: Exija que os órgãos governamentais publiquem os dados sobre a degradação do solo na sua região, conforme as metas de LDN.
Perguntas Frequentes
O que é o instrumento de combate às secas discutido na COP17?
É uma proposta de tratado internacional que estabeleceria obrigações legais para os países no manejo e prevenção de secas. O objetivo é conferir ao tema o mesmo peso político de acordos como o de Paris, focando em governança global e respostas coordenadas.
Por que a degradação da terra impacta a economia urbana?
A degradação do solo afeta diretamente a segurança alimentar e hídrica. A escassez de recursos gera inflação nos preços de alimentos e riscos de desabastecimento de água nas cidades, conforme demonstrado em eventos extremos recentes em grandes centros como Manaus.
Como o setor privado está envolvido na restauração do solo?
Empresas dependentes de recursos naturais (alimentos, cosméticos, moda) estão sendo convidadas a investir na restauração para garantir a continuidade de suas cadeias de suprimento. O argumento central é que a terra saudável é um ativo econômico vital que reduz riscos operacionais e financeiros a longo prazo.
