A inventividade cotidiana nas areias da capital fluminense ganhou destaque nos corredores do Centro Municipal Hélio Oiticica. A exposição “Não Somos Mula”, assinada pelo premiado fotógrafo Rogério Reis, reúne cerca de 120 registros visuais que documentam a engrenagem de sobrevivência e a estética improvisada adotada por trabalhadores ambulantes na zona sul do Rio de Janeiro.
- O que diz a mostra: A exposição reúne 120 fotos inéditas que transformam estruturas improvisadas de ambulantes em instalações artísticas.
- Contexto urbano: O lançamento ocorre em meio a protestos contra o Programa Tolerância Zero da Prefeitura do Rio.
- Controvérsia legal: O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública pedindo a suspensão imediata da medida de fiscalização.
Cerca de 80% das imagens foram capturadas em Copacabana, enquanto o restante retrata a rotina nas praias do Arpoador, Ipanema e Leblon. O nome da exposição remete diretamente ao termo pejorativo direcionado aos profissionais que percorrem longas distâncias carregando peso sob o sol, como os tradicionais vendedores de mate e seus pesados galões.
Poesia visual e a engenharia das gambiarras na orla
Nas lentes de Rogério Reis, estruturas de transporte, caixas térmicas, carrinhos e guarda-sóis deixam de ser meros utensílios utilitários para assumirem formas escultóricas. O autor define seu processo criativo como uma sistematização poética dessas ferramentas e gambiarras criadas pela própria categoria para otimizar a venda de produtos.
“Na verdade, meu método de trabalho é uma sistematização poética desses artefatos, dessas ferramentas, dessas gambiarras todas usadas como suporte para exposição dos produtos”, pontua o fotógrafo. A maior parte do acervo apresentado é inédita ao grande público e faz um contraponto direto entre o esforço físico intenso e a ludicidade capturada nas composições visuais.
Conflitos urbanos e o impacto do Programa Tolerância Zero
A abertura da mostra coincide com um momento de forte tensão institucional na capital. O Programa Tolerância Zero, implementado pela Prefeitura do Rio de Janeiro como estratégia de ordenamento urbano, intensificou o cerco aos camelôs e vendedores que atuam sem credenciamento oficial nas praias. A gestão municipal justifica a ação argumentando que o comércio irregular serve de fachada para lucros ilícitos de facções criminosas.
Em contrapartida, o Movimento Unido dos Camelôs (Muca) tem liderado manifestações públicas para denunciar o tratamento dado aos trabalhadores, apontando criminalização da pobreza e exigindo a abertura de canais efetivos de diálogo com o poder público.
A iniciativa municipal também virou alvo de contestação jurídica. O Ministério Público Federal (MPF), por meio do procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão Julio Araujo, ajuizou uma ação civil pública para suspender o programa. O argumento central aponta a ausência de articulação com a União, falta de participação popular e carência de alternativas socioeconômicas para a subsistência de milhares de famílias que dependem da atividade.
Segundo relatos colhidos por Rogério Reis junto aos próprios autônomos, existe um receio generalizado de que a precarização atual sirva de pretexto para uma futura privatização da exploração comercial nas praias por grandes empresas. Para o fotógrafo, a solução ideal passaria pela implementação de projetos socioeducativos de qualificação, em vez de medidas estritamente punitivas.
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Perguntas Frequentes
Onde está sediada a exposição “Não Somos Mula”?
A mostra fotográfica ocupa o Centro Municipal Hélio Oiticica, localizado no centro da capital fluminense, com visitação aberta até o final do mês de novembro.
Qual é o principal foco das fotografias de Rogério Reis?
O trabalho retrata a criatividade, a força e a estética das estruturas improvisadas por trabalhadores ambulantes nas areias de Copacabana, Arpoador, Ipanema e Leblon.
Quais órgãos questionam o Programa Tolerância Zero no Rio?
O Movimento Unido dos Camelôs (Muca) realiza protestos nas ruas, enquanto o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública exigindo a suspensão imediata da medida.
