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Brasil & Mundo

Quilombo urbano no Rio vence pressão imobiliária com tombamento

Por Rafael Sampaio | Publicado em 27/09/2026 às 20:54
Quilombo urbano
Fernando Frazão/Agência Brasil
📖 Leitura: 8 Min

A blindagem contra a pressão imobiliária e a valorização da memória afro-brasileira ganharam um marco definitivo no centro do Rio de Janeiro. O reconhecimento oficial do Quilombo urbano Ferreira Diniz pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) assegura a permanência de famílias centenárias na zona sul da capital, estabelecendo um freio jurídico ao avanço do setor da construção civil sobre territórios tradicionais.

Resumo rápido:

  • O Iphan tombou o Quilombo Ferreira Diniz, garantindo a proteção da área contra especulação imobiliária.
  • A medida protege casarões, o quintal comunitário e salvaguarda tradições culturais como a Feijoada da Tia Cida.
  • Trata-se do primeiro quilombo a receber o tombamento federal direto no estado do Rio de Janeiro.

O que é um quilombo urbano e como funciona a proteção do Iphan?

Um quilombo urbano consiste em um território habitado por descendentes de pessoas escravizadas em áreas de cidades, mantendo laços comunitários, culturais e de ancestralidade vivos. A proteção do Iphan atua proibindo demolições, alterações arquitetônicas indesejadas e a venda especulativa do terreno, transformando a propriedade privada individual em um patrimônio cultural coletivo protegido por lei federal.

No caso do endereço localizado na Rua Cândido Mendes, no bairro da Glória, o tombamento Iphan protege integralmente o lote habitado pelas famílias Ferreira e Diniz. Essa salvaguarda impede que construtoras comprem a área para a erguer edifícios modernos, preservando os casarões históricos e o quintal comunitário — onde vegetam espécies como coqueiros, goiabeiras, bananeiras, uma paineira-rosa e um pé de abiu.

O processo de territorialização do grupo começou na década de 1950, quando a matriarca Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados oriundos de Minas Gerais, instalou-se na antiga hospedagem ao se casar com o zelador Antônio Dias Pessanha. A comunidade expandiu-se e resistiu ao abandono do entorno até obter, em 2023, o reconhecimento oficial da Fundação Cultural Palmares.

Métrica / Indicador Dado Factual
Famílias moradoras 14 famílias
Quilombos urbanos no estado 13 de um total de 54 mapeados
Início do povoamento Década de 1950
Certificação de Fundação Palmares Ocorrida em 2023
Órgão responsável pelo tombamento Iphan (âmbito federal)

Gastronomia como ferramenta de permanência e sustentabilidade

A gastronomia afro-brasileira atua como o principal pilar de sustentabilidade financeira e difusão cultural da comunidade, garantindo a renda dos moradores e atraindo frequentadores. A Feijoada da Tia Cida, liderada por Maria Aparecida Ferreira, transformou o quintal do local em um polo culinário de visibilidade internacional e engajamento comunitário.

A cozinheira, que iniciou o empreendimento como estratégia de sobrevivência pós-pandemia da covid-19, hoje mobiliza parentes e vizinhos na operação do espaço. “Eu me sinto muito honrada em fazer essa feijoada, lembro da minha mãe, das minhas mais velhas. Hoje, quando cozinho, eu me concentro para passar para as pessoas que comam da minha comida, saúde e força, para que saiam daqui do quintal alegres”, declarou Tia Cida.

A busca por refeições no local atrai turistas e moradores do Rio, como a psicóloga Brenda Pimentel Torres, que esteve na comunidade acompanhada de Sandra Pimentel, da pequena Aurora e de Thamara Cristina Barbosa dos Santos. Para Brenda, a visita transcende o aspecto culinário: “Há um apagamento da história dos negros e essas pessoas aqui estão resistindo, sobrevivendo, inclusive, ao racismo. A sociedade ainda precisa conhecer melhor o que aconteceu e como essas pessoas resistiram e resistem”.

O papel das políticas públicas na proteção do patrimônio afro-brasileiro

As políticas de preservação do patrimônio histórico desempenham papel central na reparação de injustiças territoriais e na garantia do direito à cidade para populações vulnerabilizadas. Quando o Estado reconhece uma área ocupada por um quilombo urbano, ele cria mecanismos institucionais que impedem o despejo forçado e o apagamento da memória negra nas regiões centrais das metrópoles.

A medida do Iphan cumpre uma função reparatória direta contra a gentrificação — processo no qual a valorização de um bairro encarece o custo de vida e expulsa a população original. Como destacou a superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, Patricia Corrêa, a decisão consolida uma barreira legal:

“O tombamento cumpre múltiplas funções: jurídica, ao estabelecer restrições de demolição, descaracterização e intervenções incompatíveis com o valor cultural reconhecido; territorial, ao consolidar o reconhecimento do espaço como um bem cultural coletivo e não como mera mercadoria imobiliária; simbólica, ao afirmar publicamente a relevância histórica e social da presença negra naquele território urbano; e reparatória, ao enfrentar o apagamento e expulsão das comunidades negras das áreas centrais.”

O que o visitante precisa saber para conhecer o Quilombo Ferreira Diniz

Visitar um espaço de resistência cultural exige postura respeitosa, compreensão sobre as regras do local e apoio direto à economia comunitária. O turista ou morador que deseja vivenciar essa experiência deve alinhar sua ida aos horários de funcionamento dos eventos públicos e colaborar diretamente com os moradores locais.

Para aproveitar a visita de forma consciente e impactar positivamente o território, o público pode seguir este guia prático:

* Horário dos eventos: As feijoadas tradicionais ocorrem prioritariamente às sextas-feiras, com preparo iniciado nas primeiras horas da manhã.
* Consumo consciente: Adquira pratos, bebidas e artesanatos produzidos diretamente pelas famílias Ferreira e Diniz, garantindo a remuneração direta da comunidade.
* Respeito ao espaço residencial: Lembre-se de que o local é a residência de 14 famílias; transite apenas pelas áreas sociais e de restaurante liberadas pelos moradores.
* Difusão de conhecimento: Divulgue a história do local em redes sociais e círculos pessoais para fortalecer a luta contra o apagamento da cultura negra na zona sul carioca.

Um novo paradigma para o urbanismo e o patrimônio nacional

A preservação de um enclave verde e comunitário no bairro da Glória expõe as contradições do desenvolvimento urbano predatório nas grandes capitais brasileiras. Historicamente, os processos de modernização das cidades brasileiras — como a Reforma Passos no Rio do início do século XX — expulsaram a população negra das áreas centrais em direção às periferias e morros, sob o pretexto de sanitarismo e progresso visual.

O tombamento federal de uma área quilombola incrustada entre edifícios de alto padrão inverte essa lógica histórica. Ao reconhecer o valor cultural imaterial de uma sabedoria que se manifesta no cultivo de árvores frutíferas e no preparo de pratos tradicionais, o poder público sinaliza que o valor de um solo urbano não pode ser medido apenas pelo seu potencial de construção imobiliária. A permanência do Ferreira Diniz representa uma vitória coletiva para o urbanismo inclusivo e para a preservação da diversidade biológica e cultural do Brasil.

Perguntas Frequentes

O que é o Quilombo Ferreira Diniz?

É um quilombo urbano localizado na Rua Cândido Mendes, no bairro da Glória, zona sul do Rio de Janeiro, formado pelas famílias Ferreira e Diniz a partir da década de 1950 e certificado pela Fundação Cultural Palmares.

O que muda com o tombamento pelo Iphan?

Com a decisão do Iphan, o terreno, os casarões e o quintal passam a ser protegidos por lei federal. Ficam proibidas demolições, alterações na estrutura arquitetônica e intervenções imobiliárias que descaracterizem o valor cultural e histórico do espaço.

Como funciona a Feijoada da Tia Cida no local?

A feijoada é preparada por Maria Aparecida Ferreira (Tia Cida) e servida no quintal comunitário, funcionando como polo gastronômico, evento cultural e principal fonte de renda e sustentabilidade para as famílias moradoras do quilombo.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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