A mobilização em torno das festividades em homenagem a Cosme e Damião transforma a rotina de diversos bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro. A tradição, que atravessa séculos e une universos da Igreja Católica e de religiões de matriz africana, manifesta-se no cotidiano como uma ferramenta comunitária contra o preconceito e a proliferação de discursos de ódio.
Resumo rápido:
- Comunidades no Rio realizam distribuições de doces e doações em tributo aos santos.
- A prática fortalece o sincretismo e combate a intolerância religiosa em bairros cariocas.
- Atividades em terreiros e paróquias reúnem famílias e resgatam origens históricas do século 3.
O alcance social da devoção popular
A distribuição de guloseimas e mantimentos nas celebrações dedicas aos santos representa um ato de salvaguarda cultural no ambiente urbano carioca, articulando cooperação e acolhimento em áreas de vulnerabilidade.
Em bairros como Andaraí e Vila Isabel, a movimentação de fiéis extrapola as paredes dos templos. Na Paróquia de São Cosme e São Damião, a professora Caroline Pinho de Araújo, de 40 anos, acompanha os ritos católicos enquanto mantém a prática de ofertar pacotes de doces nas ruas. A educadora, que transita entre o catolicismo e a umbanda, credita aos santos conquistas pessoais, como sua saúde, família e emprego, destacando que o ato de ofertar alimentos às crianças atua diretamente na pregação do amor frente aos episódios de hostilidade religiosa.
No Terreiro de Umbanda São Cosme e São Damião, em Vila Isabel, a estrutura de doações amplia o alcance das festividades. A liderança espiritual do espaço, a mãe de santo Ana Carolina Oliveira, coordena uma ação focado no atendimento imediato de necessidades básicas. Além dos tradicionais doces, pipocas e algodão-doce, a instituição faz a entrega de brinquedos, pacotes de cachorro-quente e kits de higiene pessoal direcionados tanto ao público infantil quanto aos adultos da região.
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| Local de Celebração | Tipo de Ação Comunitária |
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| Paróquia no Andaraí | Missas e distribuição voluntária |
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| Terreiro de Umbanda em Vila Isabel | Kits de higiene, alimentos e brinquedos |
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Como funciona a origem histórica dos santos médicos
A trajetória dos irmãos venerados remonta ao século 3, na região da Síria, onde atuavam na medicina de forma gratuita antes de serem martirizados durante o governo imperial romano.
Segundo o historiador e escritor Luiz Antonio Simas, os relatos tradicionais apontam que os médicos curavam crianças sem cobrar qualquer remuneração. O costume de ofertar doces aos enfermos surgiu como uma estratégia terapêutica da época, fundamentada na premissa de que a alegria das crianças auxiliava diretamente na recuperação da saúde. Durante as perseguições movidas pelo imperador romano Diocleciano — figura ligada também ao martírio de São Jorge e São Sebastião —, os irmãos foram mortos por não renegarem a fé cristã.
O vigário da paróquia no Andaraí, padre Luiz Gustavo Menezes do Nascimento, reforça que o testemunho histórico dessas figuras, vivenciado há cerca de 1,7 mil anos, permanece mobilizando peregrinos na capital fluminense. O sacerdote, que frequenta as comemorações desde a infância, aponta a história de resistência dos mártires como a principal força motriz para a manutenção das missas e romarias no bairro.
O sincretismo religioso e a ancestralidade negra
O processo de sincretismo religioso no Brasil surgiu da necessidade de salvaguarda cultural dos povos escravizados, que associaram os santos católicos às entidades conhecidas como erês.
Durante o período colonial e imperial no Brasil, africanos trazidos à força e seus descendentes foram impedidos de praticar abertamente suas manifestações espirituais. Para manter seus cultos ativos sem sofrer represálias ou punições severas, correlacionaram as figuras dos erês — entidades espirituais associadas à infância, à alegria e à renovação — aos santos gêmeos da Igreja Católica. A mãe de santo Ana Carolina Oliveira ressalta que essa construção histórica fundamenta a continuidade das atividades em seu terreiro, mantidas pela família há mais de 60 anos e estabelecidas há seis anos no endereço atual em Vila Isabel.
Para os praticantes, a participação na entrega de prendas representa a preservação direta da memória ancestral. A massoterapeuta Vania Victorio Gonçalves da Silva, acompanhada da filha Natasha e da jovem Mirele Marinho da Silva, ambas de 14 anos, pontua que a visita ao terreiro para a coleta de brinquedos e doces renova hábitos transmitidos por sua mãe e avó. Conforme o depoimento da estudante Mirele, a ocupação pública dos espaços para festejar a data funciona como uma afirmação identitária diante da intolerância.
Mecanismos de combate ao preconceito e garantia de direitos
O enfrentamento aos atos de intolerância patrimonial e institucional exige a aplicação rigorosa do arcabouço jurídico nacional e o acionamento dos canais de proteção ao cidadão.
No Brasil, a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos são direitos fundamentais resguardados pela Constituição Federal de 1988. Práticas discriminatórias que venham a obstar, violar ou perturbar cerimônias, terreiros e igrejas configuram ilícitos penais enquadrados na Lei nº 7.716/1989, que prevê sanções reclusivas para condutas que atentem contra a dignidade de grupos religiosos.
Para assegurar a proteção de devotos e organizadores durante festejos populares em vias públicas, recomenda-se a adoção de um protocolo defensivo preventivo:
1. Notificação de eventos públicos: Comunicar com antecedência as autoridades de segurança pública e órgãos municipais de posturas sobre a realização de distribuições de alimentos ou procissões em vias abertas.
2. Registro de ocorrências: Em caso de abordagens agressivas, ofensas verbais ou perturbação de cultos, acionar imediatamente a Polícia Militar através do telefone 190.
3. Formalização de denúncias estaduais e federais: Encaminhar registros em áudio, vídeo ou relatos de testemunhas ao serviço Disque 100 (Direitos Humanos) ou junto à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).
Análise editorial sobre a permanência das celebrações urbanas
A vitalidade observada nas ruas do Rio de Janeiro durante as festividades dedicadas a Cosme e Damião expõe a capacidade da cultura popular em criar pontes sociais em meio a momentos de polarização. A coexistência pacífica entre a missa católica e a gira de umbanda, por vezes no mesmo perímetro urbano, demonstra como a devoção atua como um elemento de coesão territorial. Mais do que a simples distribuição de guloseimas, o rito reafirma a ocupação democrática do espaço público e estabelece uma rede informal de solidariedade que ampara populações vulneráveis. A manutenção dessas práticas por sucessivas gerações atesta que a identidade cultural carioca é profundamente dependente do respeito à sua diversidade de credos.
Perguntas Frequentes
Por que se distribuem doces no dia de Cosme e Damião?
A prática relaciona-se com a tradição de que os santos médicos entregavam doces para acalmar as crianças durante os tratamentos, associada ao culto aos erês nas religiões de matriz africana, que simbolizam a infância e a pureza.
Qual é a diferença na data de comemoração da Igreja Católica e da Umbanda?
A Igreja Católica passou a celebrar oficialmente a data no dia 26 de setembro após a reforma do calendário litúrgico em 1969, enquanto as religiões de matriz africana e a tradição popular mantiveram a celebração no dia 27 de setembro.
O que é o sincretismo associado a esses santos?
Trata-se da fusão cultural e religiosa ocorrida no período da escravidão no Brasil, quando os africanos associaram os santos católicos às entidades infantis conhecidas como erês para manterem seus cultos vivos sob o regime colonial.
