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Estagnação de benefícios sociais ameaça economia de cidades no interior do país, aponta estudo da USP

Por Rafael Sampaio | Publicado em
benefícios sociais
Fernando Frazão/Agência Brasil
📖 Leitura: 6 Min

A dependência de repasses governamentais e previdenciários nas pequenas cidades fora das capitais coloca em risco a estabilidade financeira de milhões de famílias e o comércio de proximidade, caso os pagamentos sofram congelamento ou perdas reais. O alerta consta em um levantamento divulgado recentemente pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). O material detalha como aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) sustentam grande parte do orçamento doméstico em municípios não metropolitanos.

Resumo rápido:

  • Estudo da FEA-USP alerta que travamento de benefícios sociais pode retrair a economia do interior.
  • Transferências públicas chegam a compor metade do orçamento das famílias mais pobres fora das metrópoles.
  • Simulações indicam que a ausência de ganhos reais nos auxílios poderia empurrar milhões para a pobreza.

O peso das transferências na economia do interior

Para o leitor que vive em centros urbanos menores, a dinâmica financeira local está diretamente atrelada ao fluxo contínuo de recursos federais injetados via aposentadorias, previdência e programas de transferência de renda. Conforme aponta a pesquisa do Made-USP, cerca de 4 mil dos 5.569 municípios brasileiros estão situados fora das regiões metropolitanas, cenário onde o peso dessas verbas chega a dobrar na comparação com as capitais. No Ceará, por exemplo, os repasses respondem por 22% da renda agregada na região metropolitana, salto que atinge 40% nas cidades do interior.

“Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, destaca a co-diretora do Made-USP, a economista Luiza Nassif.

A circulação imediata desses valores funciona como o principal motor do comércio de bairro, desde farmácias até mercados locais. Quando ocorre qualquer oscilação negativa ou estagnação no poder de compra desses beneficiários, o impacto atinge inclusive os comerciantes e trabalhadores que não dependem diretamente de auxílios estatais, gerando um efeito em cadeia na arrecadação tributária dos municípios e na oferta de postos de trabalho.

Projeções de retração e vulnerabilidade regional

O estudo modelou os reflexos econômicos de diferentes trajetórias para a renda dos benefícios nos três anos seguintes, tomando como base o período entre 2022 e 2025 — intervalo marcado por ganhos reais para o BPC e para aposentadorias. O modelo comparou esse cenário de valorização com o padrão verificado entre 2019 e 2022, período que registrou ausência de aumentos reais no salário mínimo e congelamento generalizado.

Sem os reajustes reais, a renda agregada do interior do país tenderia a uma retração severa, ficando entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar obtido com a valorização. As simulações apontam disparidades geográficas importantes: os cenários mais críticos recairiam sobre o interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, com quedas estimadas entre 17% e 18% na renda total. Já em estados como Amazonas, Sergipe e Pernambuco, a perda estimada alcançaria a faixa de 15%. No Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a retração oscilaria entre 10% e 13%, enquanto unidades da federação como São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina poderiam registrar perdas de até 6,5%.

Risco de ampliação da extrema pobreza

Além da contração na atividade econômica, o congelamento de valores incide diretamente sobre indicadores sociais fundamentais. O levantamento ressalta que o sistema de transferências atua como barreira contra a indigência nas faixas de menor renda.

“Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirma Luiza Nassif.

De acordo com o estudo, para núcleos familiares com rendimento per capita de até 1,5 salário mínimo, os benefícios públicos podem compor até 50% de todo o orçamento mensal. Projeções matemáticas contidas no relatório indicam que a ausência de ganhos reais no período analisado teria empurrado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas para a faixa de pobreza nas localidades fora das regiões metropolitanas, sendo que 2,4 milhões delas cairiam na extrema pobreza.

Em termos absolutos, as maiores elevações na população empobrecida ocorreriam na Bahia, com até 336 mil pessoas adicionais nessa condição, seguida por São Paulo, com até 263 mil, e Minas Gerais, com até 251 mil. Outros estados como Maranhão, Pará e Ceará também acumulariam acréscimos superiores a 200 mil indivíduos em situação de vulnerabilidade severa cada um.

“Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, observa Nassif. “Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, acrescenta.

Perguntas Frequentes

Qual é o principal foco do estudo divulgado pelo Made-USP?

O levantamento analisa o impacto econômico e social que a estagnação ou o corte em benefícios previdenciários e assistenciais, como o Bolsa Família e o BPC, pode provocar nas cidades do interior do Brasil.

Quais regiões apresentariam os impactos mais severos segundo a pesquisa?

O estudo indica que o interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí registraria as maiores quedas percentuais na renda total, com reduções projetadas entre 17% e 18% caso os auxílios não mantenham ritmo de alta real.

Quantas pessoas poderiam ser empurradas para a pobreza com o congelamento dos repasses?

Simulações do levantamento apontam que a ausência de ganhos reais nos benefícios poderia empurrar cerca de 2,7 milhões de pessoas para a pobreza em municípios não metropolitanos, sendo 2,4 milhões delas para a extrema pobreza.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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