Pular para o conteúdo
Sucesso FM
NO AR Sucesso FM
Você está ouvindo Sucesso FM
HORA CERTA --:--:--
Brasil & Mundo

Sociedade civil contesta Anatel sobre acesso à internet nas eleições

Por Rafael Sampaio | Publicado em 28/09/2026 às 21:10
internet nas eleições
mounsey / Pixabay
📖 Leitura: 6 Min

A fragilidade do acesso à rede em momentos decisivos para a democracia brasileira motivou doze entidades a solicitarem ingresso como *amici curiae* no Supremo Tribunal Federal. O movimento busca assegurar que brasileiros sem franquia de dados móveis possam navegar livremente por sites de informação e buscadores nas 72 horas que antecedem o pleito, desafiando a postura cautelar adotada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Resumo rápido:

  • Doze entidades contestam a Anatel no STF sobre a liberação de internet nas eleições.
  • O debate central gira em torno da garantia de acesso à informação contra o bloqueio por falta de dados.
  • A iniciativa visa mitigar o impacto da exclusão digital sobre as parcelas mais pobres da população brasileira.

O embate técnico sobre a conectividade móvel

O argumento central das entidades, que incluem nomes como o Sleeping Giants Brasil e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), é que a Anatel falhou ao apresentar dados concretos para sustentar o receio de colapso nas redes móveis. Segundo o grupo, a agência não detalhou o volume real de tráfego que seria gerado nem o impacto geográfico preciso nas zonas eleitorais.

Para as organizações, a preocupação com “picos de tráfego” soa como um argumento genérico que carece de análise individualizada para as medidas cautelares propostas. Elas sustentam que, sem estimativas sobre quantos usuários estariam com a franquia esgotada e quais medidas operacionais poderiam contornar riscos, a negativa da agência prejudica o direito fundamental de acesso à informação. A discussão ganha contornos de urgência ao se considerar que o acesso gratuito, atualmente, restringe-se apenas a portais da Justiça Eleitoral, por decisão do ministro Cristiano Zanin.

A realidade da exclusão digital brasileira

O movimento Democracia Sem Franquia, que reúne 19 instituições, sustenta sua argumentação em dados alarmantes sobre o consumo de dados no país. A disparidade entre o acesso a redes sociais com “zero rating” (que não consomem franquia) e o acesso livre à rede aberta cria um abismo informativo.

Categoria de Acesso Impacto na População
Usuários sem franquia (1 dia/mês) 64,1 milhões de brasileiros
Usuários sem franquia (8 dias ou mais) 29,5 milhões de brasileiros
Foco do debate Acesso à imprensa profissional e buscadores

Esses números, derivados de estudos do Sleeping Giants Brasil, revelam que quase um terço dos adultos conectados enfrenta períodos de interrupção ou limitação severa de navegação mensalmente. Esse cenário, além de ser uma barreira econômica, funciona como um funil para a desinformação, já que os usuários tendem a permanecer apenas em aplicativos que não descontam do pacote de dados, como WhatsApp e Instagram, locais frequentemente inundados por conteúdos não verificados.

Contexto e antecedentes: o papel da sociedade civil

A mobilização atual não é um evento isolado, mas o desdobramento de uma longa trajetória de vigilância digital no país. O Sleeping Giants Brasil, inspirado no modelo norte-americano surgido em 2016, estabeleceu-se em 2020 durante a pandemia com o propósito explícito de confrontar o discurso de ódio e a desinformação. O precedente de intervenção europeia, especificamente a investigação da Comissão Europeia sobre o TikTok nas eleições romenas de 2024, é utilizado pelas entidades para demonstrar que a preocupação com o ambiente digital durante o exercício do voto é uma tendência global e necessária.

Historicamente, o debate sobre o acesso à rede no Brasil tem sido travado entre a neutralidade da rede — princípio garantido pelo Marco Civil da Internet — e as práticas comerciais de operadoras que priorizam determinados tráfegos. Ao pleitear a entrada no processo, as doze entidades buscam elevar o tom da discussão: não se trata apenas de uma questão técnica de “tráfego de rede”, mas de uma questão de equidade democrática, onde a falta de recursos financeiros não deveria ser um impeditivo para o acesso a fontes de informação confiáveis e checadas.

Análise editorial: o padrão da exclusão

Este movimento revela um padrão preocupante: a digitalização da democracia está sendo construída sobre bases que excluem sistematicamente as populações de baixa renda. A resistência da Anatel reflete a dificuldade das instituições em transitar de uma visão puramente técnica da infraestrutura para uma visão de direitos humanos. Se a informação circula apenas por canais que não cobram franquia, o cidadão pobre é empurrado para uma bolha de desinformação, enquanto o debate qualificado fica restrito a quem pode pagar pelo acesso pleno. A judicialização desta pauta demonstra que o sistema político já compreende que a desigualdade de acesso é, em última instância, uma forma de supressão eleitoral.

Perguntas Frequentes

Por que as entidades querem acesso gratuito à internet nas eleições?

O objetivo é garantir que todos os brasileiros, inclusive aqueles sem franquia de dados, possam acessar sites de notícias, imprensa profissional e mecanismos de busca para se informar com segurança, evitando o uso exclusivo de redes sociais que facilitam a desinformação.

O que a Anatel argumenta contra a liberação?

A agência sustenta que o acesso irrestrito poderia causar picos de tráfego capazes de derrubar a conectividade celular, especialmente em áreas próximas às zonas eleitorais, comprometendo o funcionamento das redes durante o período de votação.

O que o ministro Cristiano Zanin já decidiu?

O ministro autorizou, em caráter cautelar, que pessoas com franquia esgotada tenham acesso gratuito aos sites da Justiça Eleitoral. A medida vale por 72 horas antes dos turnos e 24 horas após o encerramento da votação, mas o mérito final ainda será julgado pelo plenário do STF.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

Mais Notícias

Usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade. Saiba mais