A mobilização social contra a intolerância religiosa volta a ocupar o espaço público em Porto Alegre neste sábado (15). O movimento, liderado pelo Pai Ricardo de Oxum, busca enfrentar o preconceito estrutural sofrido por praticantes da Quimbanda, da umbanda e do candomblé, transformando a capital gaúcha em um polo de resistência e afirmação da identidade afro-brasileira no Cone Sul.
Resumo rápido:
- Marcha e Encontro de Quimbandeiros combatem a intolerância religiosa em Porto Alegre neste sábado.
- Eventos visam dar visibilidade às religiões de matriz africana e enfrentar o preconceito social.
- Rio Grande do Sul lidera percentual de adeptos de umbanda e candomblé no país.
A urgência do enfrentamento ao preconceito
A necessidade de ocupar as ruas de Porto Alegre surge como resposta direta à persistência de atos discriminatórios que atingem terreiros e fiéis. A marcha, em sua 3ª edição, e o Encontro Internacional de Quimbandeiros, que chega à 19ª edição, funcionam como mecanismos de defesa da liberdade de culto e da dignidade humana.
Segundo o Pai Ricardo de Oxum, presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, a gênese do encontro remonta a um período onde a simples manifestação da fé, como acender uma vela ou circular caracterizado, era alvo de hostilidade aberta. O evento, que começou localmente, hoje transcende fronteiras, recebendo representantes da Argentina, Uruguai e Chile, países onde a resistência religiosa é um desafio cotidiano. Na Argentina, o sacerdote relata um cenário de maior rigidez, onde a prática religiosa enfrenta barreiras legais e policiais severas, dificultando a preservação das tradições ancestrais.
O peso demográfico e a diversidade espiritual
O Rio Grande do Sul consolidou-se como o estado com a maior concentração proporcional de seguidores de religiões de matriz africana no território nacional. Conforme os dados do Censo Demográfico 2022 realizado pelo IBGE, a diversidade religiosa no estado apresenta números que contrastam com a frequência de episódios de intolerância.
| Estado | Percentual de seguidores (Umbanda/Candomblé) |
|---|---|
| Rio Grande do Sul | 3,19% |
| Rio de Janeiro | 2,58% |
| São Paulo | 1,47% |
| Bahia | 1,00% |
| Distrito Federal | 0,85% |
A presença da Quimbanda no estado não é apenas um fenômeno religioso, mas um pilar da história da população negra. A distinção entre as correntes – como o batuque, que se identifica pelo uso do branco, e a Quimbanda, marcada pelas cores preto e vermelho – é frequentemente mal compreendida. A associação dessas entidades, como Exu e Pomba-Gira, a preceitos morais equivocados gera um estigma que o movimento busca desconstruir. Pai Ricardo de Oxum ressalta que essas figuras representam mensageiros com vivências humanas diversas, e que o preconceito muitas vezes se alimenta da interseccionalidade, atingindo especialmente a comunidade LGBTQIA+ que encontra acolhimento nessas tradições.
Utilidade pública: como denunciar a intolerância
O combate à intolerância religiosa é um dever compartilhado entre Estado e sociedade civil. Para quem sofre ou testemunha qualquer forma de discriminação baseada na crença, o canal oficial para registro é o Disque 100, serviço do Ministério dos Direitos Humanos. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia.
Para realizar uma denúncia eficaz, o cidadão deve buscar reunir o máximo de informações possível:
1. Identificação: Se possível, anote o nome dos envolvidos ou características físicas.
2. Registro: Fotos, vídeos ou prints de publicações em redes sociais que configurem discurso de ódio.
3. Localização: Endereço exato onde o ato ocorreu.
4. Relato: Descrição detalhada do ocorrido, sem omitir detalhes sobre ofensas verbais ou agressões físicas.
Ao acionar o Disque 100, o relato é encaminhado para os órgãos competentes, como o Ministério Público e as delegacias especializadas, garantindo que o ciclo de violência seja monitorado pelas autoridades.
Monumento como símbolo de resistência
A existência de um marco histórico em Porto Alegre, o Rótulo da Quimbanda, simboliza um passo importante no diálogo entre poder público e tradições de matriz africana. Doado pela prefeitura há cinco anos, o espaço abriga o primeiro monumento a Exu em céu aberto no Brasil. Esse local não serve apenas como ponto de culto, mas como um lembrete físico da legitimidade da presença dessas religiões no espaço urbano. A Família Yecari, que colabora na organização do evento, reforça que a visibilidade é a principal ferramenta para que a sociedade compreenda que a fé não se traduz em maldade. “O mal está na cabeça do ser humano”, afirma o sacerdote, desmistificando o papel das entidades na espiritualidade afro-brasileira.
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Perguntas Frequentes
1. O que caracteriza a intolerância religiosa no cenário brasileiro?
A intolerância religiosa manifesta-se através de agressões físicas, verbais, depredação de templos ou impedimentos ao exercício da fé. No caso das religiões de matriz africana, o preconceito muitas vezes deriva de uma leitura deturpada sobre as entidades Exu e Pomba-Gira, que são injustamente associadas a práticas negativas, ignorando sua importância ancestral e cultural.
2. Qual a importância do Encontro de Quimbandeiros para a região?
O evento cumpre uma função social de desestigmatizar a religião e oferecer suporte a sacerdotes que enfrentam perseguições em seus municípios. Ao reunir líderes do Brasil, Argentina e Uruguai, o encontro fortalece a rede de proteção e promove a educação sobre os fundamentos da Quimbanda, combatendo a desinformação que alimenta o preconceito local.
3. Por que o Rio Grande do Sul possui um índice alto de adeptos destas religiões?
O estado possui uma trajetória histórica profunda ligada às religiões de matriz africana, com uma forte presença do batuque gaúcho. Os dados do IBGE refletem uma tradição enraizada na formação da população local, que, apesar das estatísticas de intolerância, mantém vivas as práticas ancestrais através da resistência dos terreiros e de lideranças religiosas ativas.
