Uma articulação coletiva formada por mais de 150 jovens negros e moradores de regiões descentralizadas do Distrito Federal e de municípios goianos do entorno quer redefinir a participação da juventude periférica na política partidária. Lançado no Dia Internacional da Juventude, o manifesto “Perifa nas Urnas” apresenta um conjunto de demandas estruturais destinadas a pressionar os candidatos que disputarão as eleições de 2026 DF. O documento propõe uma ruptura com o modelo tradicional de gestão governamental, exigindo que as comunidades historicamente isoladas do centro de poder de Brasília tenham voz ativa no orçamento público.
- Mobilização de base: Mais de 150 jovens de nove regiões administrativas do DF e duas cidades de Goiás elaboraram propostas de forma coletiva durante dois anos.
- Demandas prioritárias: O documento exige a descentralização da mobilidade urbana, construção de hospitais regionais e fomento a cursinhos populares.
- Foco no legislativo e executivo: As propostas são direcionadas especificamente aos postulantes aos cargos de governador, deputados (distrital e federal) e senador em 2026.
Como a juventude periférica na política desafia as decisões de gabinete
A formulação de políticas públicas no Distrito Federal historicamente esbarra na centralização geográfica. Ao contrário de outros estados brasileiros, o DF não possui municípios, mas sim regiões administrativas que dependem diretamente do governo centralizado no Plano Piloto. Essa distância física e social gera gargalos severos em áreas como transporte e saúde nas regiões mais populosas, como Ceilândia e Samambaia.
Para a estudante de geografia Sara Lisboa, de 21 anos, moradora de Ceilândia, o distanciamento dos gestores públicos em relação ao cotidiano das periferias compromete a eficiência dos serviços prestados na ponta.
“Quando a política pública é realizada por gabinetes distantes da realidade, feita por pessoas que não usufruem do serviço público — como transporte, saúde e educação —, o resultado é outro. Política pública precisa ser pensada por quem vive essa rotina”, afirma a jovem.
Essa realidade impulsiona a necessidade de inserir a juventude periférica na política de maneira propositiva, superando a barreira técnica que frequentemente ignora os anseios das comunidades periféricas em favor de análises puramente burocráticas.
A construção coletiva do manifesto ‘Perifa nas Urnas’
O documento final entregue à sociedade não surgiu de forma abrupta. Ele é o resultado de um processo pedagógico e de debate político que durou dois anos, capitaneado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). Fundado em 1979, o Inesc é uma organização não governamental amplamente reconhecida pela análise técnica do orçamento público federal e pela defesa dos direitos humanos, atuando diretamente na capacitação de lideranças sociais.
A mobilização envolveu encontros sistemáticos e oficinas com moradores de territórios vulneráveis do DF, como Estrutural, Itapoã, Paranoá, Planaltina, Riacho Fundo II, Samambaia, São Sebastião e Taguatinga, além das cidades goianas de Águas Lindas e Valparaíso.
O fotógrafo e gestor público Victor Queiroz, de 27 anos, residente no Paranoá, atuou diretamente na elaboração das propostas. Ele aponta que a conscientização eleitoral transforma a relação da comunidade com o voto.
“A partir do momento em que a população adquire consciência da importância que o seu voto tem para fazer as políticas públicas chegarem ao seu território, a votação deixa de ser só um dever e passa a se tornar um instrumento real e valioso”, destacou o jovem.
Segundo Queiroz, o diagnóstico das necessidades locais feito por quem habita o território difere drasticamente da avaliação de técnicos externos que não dialogam com os moradores.
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| EIXOS DA CARTA-MANIFESTO |
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| 1. Saúde (Construção de hospitais nas regiões periféricas) |
| 2. Educação (Investimento pesado em cursinhos populares) |
| 3. Mobilidade Urbana (Descentralização do fluxo de ônibus) |
| 4. Segurança Pública (Foco em prevenção e direitos) |
| 5. Assistência Social (Ampliação da rede de proteção) |
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Linguagem direta e utilidade pública das propostas
A estratégia da campanha para as eleições de 2026 DF passa necessariamente pela comunicação horizontal. Para que as propostas ganhem tração, a linguagem técnica do orçamento público precisa ser traduzida para a realidade dos adolescentes.
Dyarley Viana de Oliveira, assessora política do Inesc na divisão voltada para a infância e juventude, explica que o projeto adota o diálogo direto entre pares. “Na linguagem dos jovens, estamos anunciando que esse espaço é para eles também”, aponta a assessora.
Para o eleitorado geral, o manifesto serve como uma ferramenta prática de controle social. Documentos desse tipo permitem que qualquer cidadão compare as promessas de campanha com as demandas reais das periferias, servindo de base para a cobrança de deputados distritais, federais, senadores e governadores após o pleito. A descentralização de serviços públicos básicos, apontada no documento, reduz o fluxo pendular diário em direção ao centro de Brasília, gerando impactos positivos no trânsito e na qualidade de vida de toda a região metropolitana.
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Perguntas Frequentes
O que é a campanha Perifa nas Urnas?
É um movimento organizado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) que visa capacitar politicamente jovens de periferias do Distrito Federal e entorno, incentivando o voto consciente e apresentando propostas concretas para candidaturas políticas.
Quais são as principais reivindicações do manifesto dos jovens?
O documento se divide em oito eixos principais, destacando-se a criação de novos hospitais regionais, a expansão da rede de assistência social, o fomento a cursinhos comunitários preparatórios, melhorias na segurança pública e um sistema de transporte público que não dependa exclusivamente da ligação com o centro de Brasília.
Como o manifesto foi elaborado?
A Carta-Manifesto foi construída coletivamente ao longo de dois anos por meio de oficinas de formação política, reunindo mais de 150 jovens e adolescentes de nove regiões administrativas do DF e de duas cidades do estado de Goiás.
