Artigos

O segredo do planejamento urbano do século XVIII em Rio de Contas

Rio de Contas, Bahia
Por Rafael Sampaio | Atualizado em 01/08/2026 às 22:48
O segredo do centro histórico de Rio de Contas, a primeira cidade planejada da Bahia
adolforamosmatutino117 / Pixabay
📖 Leitura: 5 Min🕒 Publicado: 01/08/2026 às 22:48🔄 Última Atualização: 01/08/2026 às 22:53

Fundada oficialmente no século XVIII no interior da Bahia, a cidade de Rio de Contas destaca-se na geografia do sertão nordestino por apresentar um traçado urbano planejado que rompeu com os padrões espontâneos de colonização da época. O município, localizado na Chapada Diamantina, guarda em sua estrutura urbana e em seus monumentos arquitetônicos os vestígios de um dos períodos mais intensos da mineração de ouro no Brasil colonial, mantendo grande parte de suas características originais preservadas pelo isolamento econômico que sucedeu o esgotamento das lavras.

O traçado geométrico que desafiou o século XVIII no sertão baiano

A urbanização de Rio de Contas difere frontalmente da maioria dos arraiais garimpeiros do período colonial brasileiro, que costumavam crescer de forma desordenada ao longo dos cursos d’água e encostas. O projeto urbanístico da localidade baseou-se em linhas retas, quadras regulares e avenidas amplas, elementos que exigiram rigor geométrico dos construtores em pleno relevo acidentado da região.

Esse planejamento inicial visava não apenas a organização administrativa e fiscal da Coroa portuguesa sobre a extração de riquezas, mas também a segurança e a salubridade da povoação. As diretrizes urbanas impostas pelas autoridades coloniais garantiram que a circulação de tropas, mercadorias e cidadãos ocorresse de maneira ordenada, estabelecendo um marco na história do urbanismo brasileiro.

A implantação desse modelo no sertão baiano evidencia o controle exercido pela metrópole portuguesa sobre as áreas mineradoras. O desenho viário facilitava o patrulhamento, a cobrança de impostos e o combate ao contrabando de ouro, principal atividade econômica que justificou a criação do núcleo urbano na região.

O garimpo de ouro e a fundação da Vila Nova de Nossa Senhora do Livramento

O surgimento da localidade está diretamente ligado à descoberta de ouro nas margens do Rio de Contas Pequeno no início do século XVIII. Bandeirantes e faiscadores adentraram o sertão baiano em busca de metais preciosos, estabelecendo acampamentos provisórios que rapidamente atraíram população e comércio para a área da Chapada Diamantina.

Com o crescimento populacional e a necessidade de instituir a autoridade real, a vila foi criada oficialmente em 1723 e instalada em 1724, sob a denominação de Vila Nova de Nossa Senhora do Livramento do Rio de Contas, tendo sua sede transferida anos depois para o local mais plano onde a cidade se encontra hoje.

A fundação da vila consolidou o poder administrativo na região sul da Chapada Diamantina, transformando o núcleo em um polo político e fiscal estratégico. Os principais fatos e marcos históricos da fundação incluem:

* Descoberta de jazidas auríferas no Alto Sertão da Bahia no início do século XVIII.
* Criação oficial da vila em 1723 e transferência da sede para o planalto atual em meados da década de 1740.
* Estabelecimento do nome Vila Nova de Nossa Senhora do Livramento do Rio de Contas, refletindo a importância hidrográfica e econômica da bacia local.
* Instalação de órgãos de administração da Coroa, como a Casa de Fundição e Moeda (atual Câmara Municipal) e a Antiga Cadeia Pública.

A arquitetura colonial e o isolamento que salvaram a herança histórica

O declínio da atividade mineradora no final do século XVIII e ao longo do século XIX provocou uma estagnação econômica em Rio de Contas. Longe dos grandes centros comerciais e rotas de desenvolvimento moderno, a cidade sofreu um processo de isolamento que acabou por preservar seu patrimônio arquitetônico contra demolições e reformas modernas.

Os casarões coloniais, as igrejas seculares e os prédios públicos mantêm as características construtivas originais, utilizando materiais como pedra, cal e madeira. Templos como a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e as imponentes ruínas da inacabada Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos exemplificam a arquitetura e a religiosidade do sertão baiano.

Hoje, o desafio do município reside em conciliar a preservação desse acervo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) com o desenvolvimento do turismo cultural e ecológico. A gestão do patrimônio busca garantir a sustentabilidade econômica local sem descaracterizar a identidade histórica que atrai visitantes de todo o país.

Perguntas Frequentes

Quando Rio de Contas foi fundada?

A criação oficial da vila ocorreu em 1723 (com instalação em 1724), sob o nome de Vila Nova de Nossa Senhora do Livramento do Rio de Contas, sendo sua sede fixada no local atual em meados do século XVIII.

Qual é a principal característica do planejamento urbano de Rio de Contas?

A cidade destaca-se por seu traçado geométrico ortogonal, com ruas largas, praças simétricas e quadras regulares, algo extremamente incomum para os arraiais mineradores do século XVIII no Brasil.

O patrimônio histórico de Rio de Contas é protegido por qual órgão?

O conjunto arquitetônico e urbanístico de Rio de Contas foi tombado em nível nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1980.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

Mais Notícias

Usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade. Saiba mais