A implementação de práticas pedagógicas que conectam o patrimônio imaterial aos estudantes da rede municipal de ensino de Salvador ganha fôlego com o projeto Juntaê. A iniciativa, que promove a inserção do Samba Junino nas salas de aula, busca transformar o aprendizado em uma ferramenta de reconhecimento da identidade afro-brasileira e pertencimento territorial.
Resumo rápido:
- O projeto Juntaê capacita professores para levar o Samba Junino ao currículo escolar municipal.
- A iniciativa utiliza jogos lúdicos para fortalecer a identidade cultural e o antirracismo nas escolas.
- Estudantes do Subúrbio Ferroviário e outras áreas são incentivados a reconhecer o valor de suas tradições.
A estratégia pedagógica do projeto Juntaê
O projeto Juntaê utiliza recursos lúdicos, como um quebra-cabeça temático de 48 peças, para ensinar a história do Samba Junino em sala de aula. A proposta foca em retratar o cotidiano cultural de bairros como o Engenho Velho de Brotas, permitindo que crianças e jovens identifiquem elementos de sua própria vivência como patrimônio cultural.
A formação, realizada recentemente na Faculdade de Arquitetura da Ufba, reuniu educadores e gestores para discutir como transpor a teoria do patrimônio para o cotidiano escolar. Conduzida pelo professor Ubiraci Carlucio (Bira) e pela historiadora e pedagoga Magnair Barbosa, a atividade ressaltou que o patrimônio não é algo distante ou estático, mas sim uma manifestação viva que emana dos terreiros e das festas populares. Para os educadores, o foco é demonstrar ao estudante que a cultura produzida em sua vizinhança é, de fato, um bem de valor inestimável para a cidade.
O impacto da Lei 10.639 no território baiano
A obrigatoriedade do ensino da temática História e Cultura Afro-Brasileira encontra no Samba Junino um caminho prático para a efetivação da Lei Nº 10.639. Ao integrar esses conteúdos, as unidades de ensino combatem o racismo e estimulam o orgulho da ancestralidade, cumprindo o papel social da escola em Salvador.
Conforme destacou Vagner Rocha, diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da Fundação Gregório de Mattos (FGM), o território é o ponto de partida para essa educação. Quando uma criança do Subúrbio Ferroviário, como as atendidas no Cmei Dona Maria Emilia Gadelha Viana, estuda o Samba Junino, ela não está apenas aprendendo história; ela está ressignificando o seu próprio lugar no mundo. Projetos como o “Minha Bahia é Massa” exemplificam como essa conexão pode ser feita, unindo artistas locais, a memória dos bairros e o currículo formal.
Detalhes técnicos e recursos educacionais
O Samba Junino surgiu na periferia de Salvador por volta de 1970, fundindo tradições de terreiros de candomblé com festejos católicos. O projeto Juntaê não se limita ao jogo físico; ele oferece uma camada digital para garantir a acessibilidade e a inclusão plena dos alunos.
| Recurso | Descrição Técnica |
|---|---|
| Quebra-cabeça | 48 peças com ilustração da Praça dos Artistas |
| Material Digital | Vídeo animado, audiodescrição e Libras |
| Música | “Presença Junina”, do grupo Samba Leva Eu |
| Distribuição | 500 kits gratuitos para escolas e bibliotecas |
A construção do material contou com a consultoria direta das Mestras Jacira Bafafé e Lita Bafafé, figuras centrais na preservação da memória dessa manifestação. O acesso gratuito a esses kits em bibliotecas e escolas comunitárias democratiza o conhecimento e garante que a história do Samba Junino seja preservada pelas novas gerações.
Contexto didático: O que é o Samba Junino?
Para compreender a importância dessa inserção escolar, é preciso definir o objeto de estudo. O Samba Junino é uma manifestação cultural peculiar de Salvador, reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial desde fevereiro de 2018. Diferente do samba de roda ou de outros gêneros nacionais, ele possui um ritmo próprio e uma dinâmica que envolve a comunidade em cortejos e festas que misturam o sagrado e o profano.
Nas escolas, o papel da FGM tem sido fundamental ao fomentar, por meio de editais como o “Samba Junino Ano VIII”, a produção de materiais que sirvam de suporte para professores. A educação patrimonial, neste caso, atua como uma vacina contra o esquecimento. Ao colocar a criança como protagonista — aquela que reconhece a cultura de seu vizinho ou familiar como “patrimônio” —, o projeto inverte a lógica tradicional de que o ensino deve vir apenas de cima para baixo. O aluno passa a ser também o detentor do saber.
Utilidade pública: Como aplicar em sala de aula?
Professores interessados em utilizar o patrimônio cultural em suas sequências didáticas devem seguir alguns passos fundamentais para garantir a eficácia do trabalho:
1. Investigação Territorial: Mapeie quais manifestações culturais existem no entorno da escola. O Samba Junino é um exemplo, mas o contexto local pode oferecer outras referências.
2. Consulta aos Editais: Acompanhe os editais da Fundação Gregório de Mattos e outras instituições municipais. Muitos desses projetos oferecem materiais didáticos prontos para uso.
3. Mediação de Mestres: Sempre que possível, convide detentores do saber popular — músicos, artesãos ou líderes comunitários — para conversas com os alunos. O contato direto com quem vive a tradição é a forma mais potente de aprendizado.
4. Acessibilidade: Utilize recursos digitais como audiodescrição e Libras, assim como o projeto Juntaê fez, para garantir que o material atenda a todos os perfis de estudantes.
Perguntas Frequentes
1. O Samba Junino é considerado patrimônio cultural?
Sim. O Samba Junino é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador desde fevereiro de 2018, sendo uma manifestação de matriz africana que reflete a identidade periférica da capital baiana.
2. Como o projeto Juntaê auxilia os professores?
O projeto oferece recursos lúdico-paradidáticos, como quebra-cabeças, materiais digitais em Libras e audiodescrição, facilitando a abordagem da história e cultura afro-brasileira conforme previsto na Lei Nº 10.639.
3. Onde o material do projeto Juntaê está disponível?
Na fase inicial, foram distribuídos 500 kits gratuitamente em escolas municipais, bibliotecas públicas, espaços de leitura e grupos de samba junino de Salvador, visando a democratização do acesso ao material educativo.
