Brasil & Mundo

Ameaças à segurança quilombola forçam desistência de Jurandy Pacífico

Por Rafael Sampaio | Publicado em 17/08/2026 às 17:25
Segurança quilombola
Duda Rodrigues/MDHC
📖 Leitura: 6 Min

A necessidade de garantir a sobrevivência física prevaleceu sobre a representatividade política na Bahia, após Jurandy Pacífico, único filho vivo da ialorixá Mãe Bernadete, anunciar a desistência de sua candidatura a deputado federal. O recuo, motivado por ameaças diretas, evidencia a fragilidade dos defensores de direitos humanos em territórios sob disputa.

Resumo rápido:

  • Jurandy Pacífico desistiu de candidatura a deputado federal devido a ameaças à sua integridade física.
  • A decisão reflete o medo contínuo após os assassinatos de Mãe Bernadete e Binho do Quilombo.
  • O caso reforça a urgência de medidas de segurança para lideranças quilombolas e ativistas baianos.

O peso da violência política na trajetória quilombola

A renúncia de Jurandy Pacífico não é um evento isolado, mas o desdobramento de uma tragédia familiar marcada pela violência. Mãe Bernadete, importante liderança quilombola, foi assassinada há três anos, mesmo destino enfrentado por seu filho, Binho do Quilombo. Esse histórico de perdas forçou Jurandy a priorizar sua preservação em detrimento do projeto político que visava dar voz aos povos tradicionais no Congresso Nacional.

A decisão foi comunicada por meio de uma carta de próprio punho enviada à Justiça Eleitoral e reiterada em suas redes sociais. O candidato, que buscava representar as comunidades quilombolas da Bahia, afirmou que “o sábio não é aquele que fala, é aquele que escuta” e que, diante das orientações familiares e dos riscos iminentes, o recuo tornou-se a única via para a sobrevivência.

O impacto no sistema democrático e nos direitos humanos

O recuo de uma candidatura quilombola por motivos de segurança representa um grave obstáculo à participação democrática e à diversidade de vozes no cenário político brasileiro. Quando um defensor de direitos humanos é impedido de atuar pelo medo, a própria estrutura da cidadania é fragilizada, limitando o alcance das pautas que buscam justiça social e proteção territorial.

O secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, Felipe Freitas, manifestou pesar pela decisão. Segundo o titular da pasta, o governo mantém estratégias de segurança permanente voltadas ao filho e ao neto de Mãe Bernadete desde os episódios de violência que vitimaram a família. O caso acende um alerta sobre a insuficiência de medidas protetivas para garantir que o processo eleitoral ocorra sem intimidações contra lideranças que atuam na defesa de comunidades tradicionais.

Cronologia da vulnerabilidade e contexto histórico

Para compreender a gravidade da situação, é preciso observar os marcos de violência que cercam a trajetória da família Pacífico:

Evento Status Impacto na Liderança
Morte de Binho do Quilombo Ocorrido Perda de liderança familiar
Morte de Mãe Bernadete Ocorrido (há 3 anos) Impacto nacional na luta quilombola
Candidatura de Jurandy Pacífico Desistência (2026) Encerramento de representação política direta

Como garantir a segurança de lideranças ameaçadas

A proteção de defensores de direitos humanos é um dever do Estado, que deve atuar através de programas específicos, como o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH). O acesso a esses mecanismos envolve um fluxo de comunicação constante entre as lideranças, órgãos de segurança pública e o Poder Judiciário.

Para uma liderança sob ameaça, o passo a passo de segurança institucional inclui:
1. Denúncia Formal: Registro imediato de todas as ameaças junto às autoridades policiais e órgãos de direitos humanos.
2. Solicitação de Inclusão em Programas: Requerer formalmente a proteção estatal, fornecendo evidências das ameaças recebidas.
3. Rede de Apoio: Manter contato permanente com organizações de direitos humanos, movimentos sociais e conselhos de representação quilombola para monitoramento externo.
4. Planejamento de Risco: Avaliar, junto à família e assessores, a viabilidade de trajetos, agendas públicas e exposição em mídias, como feito por Jurandy Pacífico.

A continuidade da luta quilombola

Apesar da desistência formal da disputa eleitoral, Jurandy Pacífico enfatizou que seus compromissos com os povos quilombolas permanecem intactos. Em suas declarações, o ativista reforçou que “a candidatura pode parar, mas a luta continua”, sublinhando que a decisão de não seguir com a campanha é, em si, um ato de resistência e um movimento estratégico para garantir a continuidade de um legado que transcende cargos públicos.

O caso serve como um lembrete crítico de que, no Brasil, a luta por terra, memória e direitos básicos por parte de comunidades quilombolas ainda esbarra em barreiras de violência extrema. A renúncia, embora dolorosa, levanta questões sobre o que é necessário para que, no futuro, lideranças possam exercer seus direitos políticos com a devida garantia de integridade física e liberdade de expressão, sem que o medo seja o fator determinante para suas trajetórias.

Perguntas Frequentes

Por que Jurandy Pacífico desistiu da candidatura?
A desistência foi motivada por ameaças à sua segurança. Após ouvir familiares e refletir sobre os riscos que a exposição pública poderia trazer, Jurandy optou por preservar sua vida, considerando que o cenário de ameaças tornava a campanha arriscada demais.

Qual é a relação do caso com a morte de Mãe Bernadete?
Jurandy é filho da ialorixá Mãe Bernadete e irmão de Binho do Quilombo, ambos assassinados devido à sua atuação na defesa dos direitos quilombolas. A desistência é uma resposta direta ao histórico de violência que a família enfrenta na Bahia.

O Estado oferece proteção para candidatos quilombolas?
Sim. O governo estadual, através da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, afirmou manter estratégias de segurança permanente para os familiares de Mãe Bernadete. O poder público reforça a importância de garantir a participação política livre para todos os defensores de direitos humanos.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

Mais Notícias

Usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade. Saiba mais