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Política

Violência política de gênero cresce no Brasil e atinge candidatas nas eleições

Por Rafael Sampaio | Publicado em
violência política
Marcelo Camargo/Agência Brasil
📖 Leitura: 7 Min

As mulheres que disputam cargos públicos no Brasil enfrentam um cenário de forte hostilidade e intimidação, conforme apontam registros consolidados de órgãos de justiça e de entidades civis em meio ao calendário eleitoral. A escalada das agressões direcionadas a candidatas mobiliza o debate público sobre a segurança no exercício da atividade partidária e a preservação dos direitos políticos femininos no país.

Resumo rápido:

  • Processos de violência política cresceram 11 vezes entre 2022 e 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.
  • Organizações civis contabilizam centenas de episódios de ataques contra mulheres durante o período de campanha.
  • Candidatas negras e pardas concentram a maior parte das denúncias registradas nas plataformas oficiais de atendimento.

O salto estatístico nos processos judiciais e nas campanhas

Os registros formais de violência política apresentados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que os processos dessa natureza aumentaram 11 vezes entre 2022 e 2026, passando de 15 para 177 casos. Paralelamente, levantamento divulgado pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global mapeou 134 ocorrências de violência política durante a campanha até o primeiro turno das eleições, realizado no último domingo (4), o que representou uma média de um caso a cada nove horas.

Desse total de episódios mapeados pelas entidades, 70 tiveram mulheres como vítimas, alcançando o percentual de 52,2%. Quando o recorte considera apenas os 102 episódios dirigidos de forma exclusiva a pessoas candidatas, a proporção feminina nos ataques sobe para 58,8%, mesmo grupo que representa cerca de um terço das candidaturas registradas. As agressões englobam desde ofensas verbais e machistas até ameaças graves de morte e estupro, além de episódios de violência física. No final de setembro, representantes da sociedade civil entregaram ao TSE um documento detalhando diversas denúncias de intimidação contra candidatas.

O impacto desproporcional sobre mulheres negras e pardas

Os registros da Central de Atendimento à Mulher, por meio do Disque 180, revelam que o número de denúncias de violência política alcançou a marca de 1.564 ocorrências entre janeiro e agosto de 2026. Desse volume total, as mulheres pretas e pardas figuram como as principais vítimas da hostilidade no ambiente político nacional.

A análise detalhada dos dados do Disque 180 indica que mais de 53%, somando 842 registros, referem-se a casos de violência política sofridos por mulheres pretas e pardas. Na sequência, aparecem as denúncias envolvendo mulheres brancas, que totalizaram 590 ocorrências, o equivalente a 37,72% do total. As demais 132 queixas, representando 8,44% dos registros, impactaram mulheres de outras raças. Para entidades de proteção aos direitos humanos, esses números refletem a interseção entre o preconceito de gênero e o racismo estrutural na sociedade brasileira.

O caso da deputada federal mais jovem por Minas Gerais

O cenário de hostilidade institucional ganhou repercussão nacional com a denúncia formalizada pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos. Ela relatou à Polícia Civil ter sido alvo de ameaças de morte e de violência sexual durante o período de campanha eleitoral em Minas Gerais. De acordo com a parlamentar, as mensagens continham ataques machistas, racistas e ameaças de estupro, além da exposição pública de dados pessoais, como endereço residencial, números de telefone e documentos particulares.

Diante do risco concreto à integridade física da parlamentar, o partido contratou segurança armada para protegê-la. Ana Elisa obteve 524.219 votos nas eleições de 2026, conquistando o posto de segunda candidata mais votada no estado para a Câmara dos Deputados, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL). Com o resultado, ela se consolidou como a mulher mais votada na história mineira para o cargo federal e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil.

A leitura institucional sobre a misoginia estrutural

A articulação entre a violência praticada nos espaços públicos e os desdobramentos na vida privada das vítimas é analisada por especialistas e representantes do poder público como reflexo de dinâmicas culturais enraizadas. A secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, conecta o fenômeno a um quadro mais amplo de exacerbação da misoginia, da violência doméstica e dos índices de feminicídio.

“É assustador porque as violências políticas são, no fundo, questões estruturais, sejam elas no limite da ameaça à vida, sejam essas violências cotidianas e veladas que tentam desestimular a participação da mulher na política”, declarou a representante da pasta federal.

Histórico de episódios de violência contra mulheres no poder

A trajetória de mulheres em espaços de decisão no Brasil acumula episódios públicos de graves ameaças e violações de direitos. Em março de 2018, a vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), mulher negra e LGBTQIA+, foi assassinada a tiros em via pública no Rio de Janeiro. Em dezembro de 2020, a então deputada estadual de São Paulo, Isa Penna (Psol-SP), foi apalpada na região do seio pelo deputado Fernando Cury durante sessão na Assembleia Legislativa paulista (Alesp), episódio que resultou na condenação do parlamentar por importunação sexual.

Outro caso emblemático ocorreu em 2014, quando a então deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) ouviu do então deputado federal Jair Bolsonaro, no Salão Verde da Câmara dos Deputados, que ela não mereceria ser estuprada por ser “muito feia”. Mais recentemente, em julho do mesmo ano, a escolta armada da deputada federal Talíria Petrone (PSol-RJ) foi retirada mesmo sob ameaça de milicianos. No Senado Federal, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19 em 2021, as senadoras Simone Tebet (PSB-MS) e Soraya Thronicke (PSB-MS) denunciaram interrupções sistemáticas de suas falas e a atribuição pejorativa de “nervosas” por parte de outros parlamentares.

O contexto histórico da data de mobilização

O debate sobre a proteção das mulheres contra agressões ganhou tração em outubro, mês em que se lembra o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher. A data, celebrada no sábado (10), foi instituída para marcar um ato histórico ocorrido em 1980, quando manifestantes se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo para protestar contra o crescimento dos crimes de gênero em território nacional.

No contexto dos estados nordestinos e do restante do país, a ampliação dos canais de denúncia costuma refletir tanto o aumento da incidência de casos quanto uma maior propensão das vítimas em buscar amparo legal diante de ameaças no ambiente virtual e presencial.

Perguntas Frequentes

O que configura violência política contra as mulheres no Brasil?

A legislação e os órgãos competentes consideram violência política qualquer conduta que vise impedir, obstaculizar ou restringir os direitos políticos da mulher, englobando agressões físicas, verbais, ameaças de morte, assédio e exposição de dados pessoais em razão do gênero.

Onde as mulheres podem registrar denúncias de agressão política?

As vítimas ou cidadãos que tiverem conhecimento de casos de violência política podem acionar órgãos de segurança pública, a Polícia Civil, delegacias especializadas de atendimento à mulher e canais institucionais como o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher).

Qual foi o aumento percentual dos processos registrados no TSE?

De acordo com os dados oficiais informados pelo Tribunal Superior Eleitoral, o volume de processos judiciais relativos a casos de violência política cresceu 11 vezes entre os anos de 2022 e 2026, saltando de 15 para 177 registros formais.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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