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Perda de vegetação nativa do Brasil agrava impactos do El Niño

Por Rafael Sampaio | Publicado em 12/08/2026 às 16:32
vegetação nativa do Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil
📖 Leitura: 6 Min🕒 Publicado: 12/08/2026 às 16:32

O avanço histórico do desmatamento comprometeu a barreira de defesa natural do território nacional contra eventos climáticos extremos. A redução acelerada da vegetação nativa do Brasil, que encolheu para apenas 65% do território em 2025, deixou o país substancialmente mais vulnerável aos efeitos devastadores do fenômeno El Niño no Brasil. É o que aponta a Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, divulgada nesta quarta-feira (12), que cruzou dados geoespaciais com informações atmosféricas para analisar as últimas quatro décadas de transformações ambientais.

  • A cobertura de vegetação nativa do país desabou de 79% em 1985 para 65% em 2025, uma perda severa de resiliência climática.
  • O último El Niño (2023/2024) provocou um deficit de 178 milímetros de chuva em áreas de agropecuária da Amazônia.
  • O Rio de Janeiro registrou comportamento oposto à tendência nacional, sendo o único estado a recuperar área florestal (+1%).

O fenômeno El Niño consiste no aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse processo altera os padrões de circulação de ventos e a distribuição de umidade globalmente. Na América do Sul, a dinâmica costuma se traduzir em secas severas nas regiões Norte e Nordeste, enquanto a Região Sul enfrenta volumes de chuva muito acima da média histórica.

Cientistas apontam que a vegetação nativa atua como um regulador térmico e hídrico. Por meio da evapotranspiração, as árvores lançam umidade na atmosfera, gerando os chamados “rios voadores” que ajudam a manter o regime de chuvas. Sem a cobertura vegetal original, o solo perde a capacidade de reter água e a temperatura local sobe, o que potencializa os efeitos das estiagens extremas provocadas pelo El Niño.

Como a perda de vegetação nativa do Brasil intensifica o El Niño

Os pesquisadores do MapBiomas cruzaram os dados históricos de uso do solo com o monitoramento de clima e qualidade do ar da plataforma MapBiomas Atmosfera. O foco esteve no trimestre entre setembro e novembro dos períodos em que o El Niño se manifestou com forte intensidade: 1997/98, 2015/16 e 2023/24.

Os resultados revelam que, nos anos de aquecimento do Pacífico, a ausência de chuva e a seca extrema castigaram a maior parte dos biomas do país. As únicas exceções de aumento de precipitação ocorreram no Pampa e em trechos da Mata Atlântica.

A Amazônia liderou como o bioma mais castigado pela escassez de chuva nos três eventos analisados. No El Niño mais recente (2023/2024), o impacto foi sentido com maior gravidade em territórios convertidos para a agropecuária. Nessas frentes de ocupação humana, onde a floresta deu lugar a pastos e lavouras, registrou-se um deficit de 178 milímetros de precipitação abaixo da média histórica.

O cenário também foi crítico no Pantanal, que viveu seu ano mais seco de toda a série histórica em 2024 sob o influxo do último El Niño. No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, o padrão de seca tornou-se progressivamente pior a cada novo ciclo do fenômeno, penalizando severamente as áreas remanescentes de mata nativa.

Em contrapartida, no extremo sul do país, o Pampa sofreu com o excesso de chuvas nas atividades agropecuárias durante os dois últimos episódios do El Niño.

Quatro décadas de avanço da agropecuária sobre os biomas

O mapeamento detalha uma transição profunda no perfil do território brasileiro entre 1985 e 2025. Em 1985, a vegetação nativa do Brasil representava 79% do território nacional. Quarenta e um anos depois, a ocupação humana reduziu essa fatia para 65%.

As formações florestais foram as mais sacrificadas em termos absolutos, registrando uma perda de 65 milhões de hectares sob pressão antrópica. Em seguida, aparecem as formações savânicas, com decréscimo de 46 milhões de hectares, e os campos alagados, que encolheram 6,3 milhões de hectares.

“Embora a perda tenha sido maior em florestas, proporcionalmente a perda maior foi das formações savânicas, que perderam 30% de toda a sua área nesse período”, diz o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo.

Por outro lado, o levantamento identificou que 557 milhões de hectares mantiveram sua cobertura inalterada ao longo do período analisado, dos quais 335 milhões de hectares correspondem a florestas que permaneceram em pé.

A agropecuária expandiu-se de forma agressiva, saltando de 18% de ocupação do país em 1985 para 32% em 2025. A área destinada a pastagens aumentou em 61,6 milhões de hectares, ao passo que a agricultura avançou sobre outros 48 milhões de hectares.

A pressão dessa expansão recaiu assimetricamente sobre os biomas. A Amazônia e o Cerrado sofreram as maiores perdas absolutas de vegetação nativa, com reduções de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. Já a Caatinga perdeu 10,1 milhões de hectares, seguida pela Mata Atlântica (-4,9 milhões), Pampa (-4 milhões) e Pantanal (-1,9 milhão).

Proporcionalmente, contudo, as maiores taxas de redução de cobertura nativa ocorreram no Cerrado (34%) e no Pampa (32%).

“A Mata Atlântica perdeu menos porque já tinha perdido anteriormente e também porque está em uma trajetória, nos últimos 20 anos, que estabilizou e, em alguns lugares, cresceu a área de vegetação nativa, especialmente florestas”, explica Tasso Azevedo.

No recorte geopolítico, 25 dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal registraram retração de suas áreas verdes nativas. A única exceção foi o Rio de Janeiro, que obteve uma recuperação de 1% de sua cobertura florestal original.

As perdas mais expressivas ocorreram em Rondônia (onde a vegetação nativa despencou de 92% para 59%), no Maranhão (de 91% para 61%), em Mato Grosso (de 90% para 61%) e no Tocantins (de 90% para 61%).

Como inovação metodológica, esta edição do estudo trouxe pela primeira vez o mapeamento das marismas — ecossistemas de áreas pantanosas salobras sob influência direta das marés, fundamentais para a biodiversidade costeira.

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Perguntas Frequentes

Quanto o Brasil perdeu de vegetação nativa entre 1985 e 2025?

O percentual de vegetação nativa no território brasileiro caiu de 79% em 1985 para 65% em 2025. A atividade agropecuária foi a principal responsável por essa redução, passando a ocupar 32% do país.

Qual bioma sofreu a maior perda proporcional de vegetação?

Proporcionalmente, as formações savânicas (típicas do Cerrado) foram as mais afetadas, registrando uma perda de 30% de sua área total ao longo dos 41 anos analisados.

Qual estado brasileiro conseguiu recuperar vegetação nativa?

O Rio de Janeiro foi a única unidade da federação a registrar saldo positivo, com um incremento de 1% na cobertura de vegetação nativa em seu território entre 1985 e 2025.


12 de agosto de 2026|Fonte: Agência Brasil|Edição e Reportagem: Rafael Sampaio / Redação Digita Bahia|Dados originais: Fonte e link da Fonte da Informação ↗
Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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