Política

Violência política de gênero cresce e desafia a democracia no Brasil

Por Rafael Sampaio | Publicado em 22/09/2026 às 22:15
violência política de gênero
Marcelo Camargo/Agência Brasil
📖 Leitura: 7 Min

O avanço expressivo de 177 processos registrados na Justiça Eleitoral expõe a gravidade do cenário enfrentado por candidatas e ocupantes de cargos públicos no país, um salto expressivo em relação aos anos anteriores que ameaça diretamente a representatividade institucional e o exercício pleno da cidadania feminina.

Resumo rápido:

  • Processos por violência política de gênero aumentaram expressivamente em quatro anos.
  • Nova campanha conjunta busca conscientizar e combater ataques contra candidatas.
  • Mulheres negras e LBTs sofrem a maior parte das agressões e ameaças relatadas.

O salto de denúncias e o impacto institucional

O Tribunal Superior Eleitoral registrou um aumento superior a 11 vezes no volume de processos por violência política de gênero em um intervalo de quatro anos, passando de 15 casos em 2022 para 177 ocorrências contabilizadas até setembro de 2026. Esse cenário revela uma escalada preocupante de intimidações, ataques à honra, ameaças e agressões físicas que afetam diretamente o ecossistema democrático brasileiro. A ministra do TSE, Estela Aranha, apontou que a violência política “silencia individualmente, porque essa mulher pensa: vou sair da política. Mas também atinge a coletividade, porque outras mulheres que veem a violência pensam: por que vou entrar na política?”. A magistrada enfatizou ainda que essa dinâmica expulsa as mulheres do debate público, comprometendo a pluralidade exigida pelo regime democrático.

A vulnerabilidade interseccional de mulheres negras e LBTs

A violência política no Brasil possui marcadores sociais profundos, recaíndo de maneira desigual sobre candidatas de grupos historicamente marginalizados, conforme apontam relatórios de entidades de direitos humanos e do movimento negro entregues ao presidente do TSE, ministro Nunes Marques. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Marielle Franco entre 2021 e 2025 revelou que 87% das vítimas em uma amostra de 77 casos analisados eram mulheres negras. O documento entregue por representantes da sociedade civil detalha relatos recentes de ameaças de morte, violência sexual, exposição de endereços residenciais, ataques racistas, LGBTIfóbicos, perseguições e agressões físicas direcionadas a candidatas em múltiplos estados brasileiros durante o período eleitoral.

Dados oficiais de registros de violência política

Órgão Registrador Período de Análise Volume de Casos / Denúncias Principais Tipos Identificados
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Ano de 2022 15 processos Agressões e intimidações gerais
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Até setembro de 2026 177 processos Aumentos de denúncias processuais
Ministério Público Federal (MPF) Desde 2018 436 denúncias Violência moral (221) e psicológica (177)

O cenário histórico e estrutural da representatividade feminina

O Brasil ocupa a 135ª posição em um ranking internacional de 184 países que mede a participação de mulheres no Parlamento Federal, contando com apenas 17,5% de cadeiras ocupadas por parlamentares femininas no Congresso Nacional, patamar inferior ao de nações com histórico autoritário. No plano municipal, o panorama é igualmente restrito: mais de 700 municípios não possuem nenhuma mulher em cargo eletivo, e apenas 16% das prefeituras do país são comandadas por gestoras. Esse cenário de subrepresentação é agravado por barreiras estruturais históricas, partidos políticos pouco inclusivos no financiamento de campanhas femininas e pela persistência de estruturas machistas arraigadas nas instâncias de poder local e nacional.

Mecanismos legais e a atuação dos órgãos de controle

A legislação brasileira evoluiu nos últimos anos com a tipificação específica da violência política de gênero, alinhando-se a diretrizes internacionais de direitos humanos e representatividade democrática. A coordenadora do grupo de trabalho de prevenção e combate à violência política de gênero da Procuradoria-Geral Eleitoral, Raquel Branquinho, pontua que o arcabouço normativo nacional está estruturado, mas o grande desafio reside na efetividade do enfrentamento aos abusos. Paralelamente, como resposta institucional ao quadro de vulnerabilidade, o TSE e o Ministério Público Federal lançaram a campanha conjunta “Política é Substantivo Feminino”, iniciativa voltada a informar a sociedade e fortalecer canais de denúncia contra as diversas formas de coação eleitoral.

Guia de ação e utilidade pública contra abusos eleitorais

Candidatas e eleitoras que enfrentarem situações de ameaça, intimidação, constrangimento ou difamação motivadas por gênero devem adotar medidas imediatas de preservação de provas e formalização de denúncias perante os canais competentes.
1. Documente todas as evidências: Salve capturas de tela (prints) de mensagens ofensivas em redes sociais, e-mails, áudios ou vídeos, garantindo que contenham data, horário e URL visíveis.
2. Registre boletim de ocorrência: Procure imediatamente uma delegacia de polícia civil — com preferência para Delegacias da Mulher (DEAMs) — para registrar formalmente a ocorrência de crimes como ameaça, injúria ou perseguição (*stalking*).
3. Acione a Justiça Eleitoral: Utilize as plataformas de denúncia do TSE e do Ministério Público Eleitoral para relatar práticas ilícitas que comprometam a lisura e a segurança do processo eleitoral.
4. Busque apoio institucional: Entre em contato com coletivos de direitos humanos, defensorias públicas ou comissões de direitos das mulheres da OAB para obter orientação jurídica especializada e suporte psicológico adequado.

Análise editorial: o reflexo da violência nas bases da democracia

A escalada nos registros de processos por assédio e coação contra mulheres na política deixa de ser um mero somatório estatístico para se configurar como um sintoma grave de resistência institucional às mudanças nos espaços de poder. Quando o debate público é envenenado por ameaças de morte, ataques racistas e exposição de familiares, o prejuízo recae sobre a totalidade da sociedade, que perde a pluralidade de perspectivas essenciais para a formulação de políticas públicas equilibradas. O enfrentamento a essa vertente de violência exige não apenas o rigor na aplicação das leis vigentes e punições exemplares aos agressores, mas uma transformação cultural profunda que reconheça a participação feminina plena como um pilar inegociável da soberania popular.

Perguntas Frequentes

O que caracteriza a violência política de gênero no Brasil?

Trata-se de qualquer conduta, ação ou omissão baseada no gênero que tenha a finalidade de impedir, obstaculizar ou restringir os direitos políticos de uma mulher, abrangendo desde intimidações e ataques morais à honra até ameaças físicas, violência psicológica e assassinatos relacionados à sua atuação pública.

Quais são os canais oficiais para denunciar esse tipo de violência?

As denúncias podem ser encaminhadas diretamente às Ouvidorias do Tribunal Superior Eleitoral, aos Ministérios Públicos Estaduais e Federal (MPE e MPF), além de delegacias comuns e especializadas no atendimento à mulher.

As mulheres negras sofrem mais com essa violência nas eleições?

Sim. Dados de pesquisas especializadas, como o levantamento do Instituto Marielle Franco, indicam que a interseccionalidade entre raça e gênero amplia drasticamente a vulnerabilidade, sendo a grande maioria das vítimas registradas em casos de violência extrema composta por mulheres negras.

Rafael Sampaio
Escrito por

Rafael, 41 anos, é um jornalista de Milagres apaixonado pela arte de escrever. Um eterno aprendiz dedicado a contar histórias com verdade, precisão e uma profunda conexão com o leitor.

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