O volume de recursos destinados por nações industrializadas ao apoio de países em desenvolvimento e instituições multilaterais registrou uma contração histórica de 23,1% na passagem de 2024 para 2025. O montante global repassado totalizou US$ 174,3 bilhões — o equivalente a quase R$ 900 bilhões —, representando uma diminuição líquida de US$ 52,4 bilhões em termos reais, patamar que já desconta a inflação do período.
O levantamento, que aponta o segundo ano consecutivo de retração nos repasses globais, integra a pesquisa *Financiamento para o Desenvolvimento*, produzida pelo Brics Policy Center, núcleo de estudos ligado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Assinado pelos pesquisadores Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl, o trabalho baseia-se em registros do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), grupo de nações doadoras vinculado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), bloco frequentemente associado às economias de alta renda.
Resumo rápido:
- Ajuda internacional de países ricos caiu 23,1% na transição entre 2024 e 2025.
- Redução de US$ 52,4 bilhões foi puxada principalmente pelos Estados Unidos e Europa.
- Recursos foram redirecionados para áreas como defesa e segurança energética.
O papel dos grandes doadores e a guinada nos investimentos
A contração observada decorre majoritariamente da postura fiscal e estratégica de cinco potências globais. França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos respondem conjuntamente por 95,7% de toda a redução registrada entre 2024 e 2025. O movimento foi liderado de forma expressiva pelos norte-americanos, que reduziram seus desembolsos em 56,9%, respondendo isoladamente por 75,1% de toda a queda global.
O cenário coincidiu com o início do mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, período marcado por manifestações contrárias a estruturas multilaterais e pelo desinvestimento em pactos tradicionais de cooperação. Paralelamente, o estudo aponta que o redirecionamento de verbas públicas para o setor de defesa e para a segurança energética atuou como fator determinante para o encolhimento dos caixas voltados ao exterior.
Nos Estados Unidos, as despesas militares subiram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões. Na União Europeia, o incremento nos gastos com defesa alcançou 11%, totalizando 381 bilhões de euros. No setor energético, o investimento acumulado no bloco europeu passou de US$ 215 bilhões em 2015 para aproximadamente US$ 420 bilhões em 2025, impulsionado sobretudo pelas repercussões geopolíticas da Guerra da Ucrânia, deflagrada em fevereiro de 2022.
Mecanismos da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento e seletividade multilateral
Os recursos analisados compõem a chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), formada por verbas públicas estipuladas com a finalidade de estimular o crescimento econômico e o bem-estar em territórios estrangeiros. O fluxo financeiro ocorre por duas vias principais: a modalidade bilateral, repassada de governo a governo, e a multilateral, canalizada por meio de organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial.
Apesar da retração generalizada, os pesquisadores identificaram uma dinâmica de “retração seletiva” na escolha dos canais de repasse. Enquanto o financiamento direcionado ao sistema ONU sofreu um tombo inédito de 27%, o suporte financeiro ao Banco Mundial registrou alta de 6,4%, e os bancos regionais de desenvolvimento ampliaram suas receitas em 11,9%. Para os autores da pesquisa, o comportamento indica um rearranjo estratégico em que os governos doadores priorizam estruturas consideradas mais alinhadas aos seus interesses geopolíticos específicos.
Nesse contexto de priorização seletiva, a Ucrânia manteve-se no topo dos destinatários de recursos externos, sustentada pelo apoio europeu apesar da queda de 91% nos repasses diretos enviados pelos Estados Unidos. Com um volume acumulado de R$ 44,9 bilhões injetados por 23 países e por instituições da União Europeia, a Ucrânia superou com folga o total combinado de US$ 28,1 bilhões destinado aos 44 países classificados pela ONU como Nações Menos Desenvolvidas (PMD).
As projeções acadêmicas indicam que a trajetória de baixa não deve ser interrompida no curto prazo. O modelo econométrico do Brics Policy Center aponta para uma nova retração de 6,9% ao longo de 2026, o que consolidaria três anos consecutivos de queda e reconduziria o volume global de assistência externa ao patamar registrado no ano de 2014.
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Perguntas Frequentes (FAQ)
O que motivou a queda recorde na ajuda internacional em 2025?
O decréscimo de 23,1% foi impulsionado pelo redirecionamento de verbas orçamentárias dos países ricos para áreas de segurança interna, defesa militar e infraestrutura energética, além de mudanças de diretrizes políticas em grandes potências como os Estados Unidos.
Quais países foram os maiores responsáveis pelos cortes?
Cinco nações — Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Japão — concentraram 95,7% de toda a redução observada no volume global de assistência financeira durante o período analisado.
Como a ajuda internacional é classificada institucionalmente?
A Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) divide-se em bilateral (repassada diretamente entre governos) e multilateral (enviada a instituições como a ONU, o Banco Mundial e bancos regionais de desenvolvimento para aplicação em programas específicos).
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