A violência política atingiu um de seus ápices em 19 de agosto de 1976, quando o prédio-sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) foi alvo de uma bomba. O ataque, executado em pleno funcionamento das atividades democráticas, buscou intimidar jornalistas e o pensamento crítico durante o período de exceção.
Resumo rápido:
- O atentado de 1976 à sede da ABI no Rio de Janeiro completa 50 anos de história.
- O ataque visava conter a liberdade de imprensa durante o processo de abertura política do regime.
- A instituição lança boletim especial com documentos inéditos do SNI sobre a vigilância da época.
O contexto histórico do terrorismo de Estado
O atentado à ABI não foi um evento isolado, mas parte de uma engrenagem de intimidação estruturada. Na década de 1970, o Brasil vivia sob o comando do general Ernesto Geisel, que propunha uma abertura política classificada como “lenta, gradual e segura”, enfrentando resistência interna de grupos radicais.
A Aliança Anticomunista Brasileira (AAB) assumiu a autoria do ataque através de panfletos. Este grupo paramilitar, alinhado à extrema-direita, justificava a agressão alegando que a instituição estaria “totalmente dominada pelos comunistas”. O edifício de 13 andares, inaugurado em 1938 e reconhecido como ícone da arquitetura moderna brasileira, teve o sétimo andar atingido. A explosão destruiu banheiros próximos à sala da presidência e causou danos severos à estrutura dos elevadores e dependências adjacentes, embora, felizmente, não tenha resultado em feridos.
A engrenagem da repressão e os documentos confidenciais
A ABI utilizou o projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional, para acessar informes confidenciais do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI). Esses registros revelam o nível de monitoramento exercido sobre a classe jornalística.
Os documentos de setembro de 1976 demonstram que o SNI possuía um mapeamento detalhado das reuniões e movimentações internas da entidade. O editor da publicação especial, Geraldo Cantarino, compilou fotografias históricas e relatos da época para ilustrar a extensão da vigilância. Para o atual presidente da ABI, Octávio Costa, a atuação de grupos radicais naqueles anos buscava inviabilizar qualquer avanço nas liberdades democráticas, atingindo figuras emblemáticas do jornalismo brasileiro, como Barbosa Lima Sobrinho, que presidia a entidade, e nomes de peso como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho.
Cronologia da violência no regime militar
O cenário de 1976 foi marcado por uma escalada terrorista que visava desestabilizar o país. Entre agosto e novembro daquele ano, o jornal *Jornal do Brasil* contabilizou pelo menos nove atentados terroristas no Rio de Janeiro, sendo oito deles assumidos pela AAB.
| Data | Local do Atentado | Natureza do Incidente |
|---|---|---|
| 19 de agosto de 1976 | Sede da ABI (Rio) | Explosão de bomba no 7º andar |
| 19 de agosto de 1976 | Sede da OAB (Rio) | Bomba com falha na detonação |
| 20 de agosto de 1976 | 1ª Auditoria Militar (Porto Alegre) | Coquetéis molotov (incêndio) |
| 4 de setembro de 1976 | Cebrap (São Paulo) | Bomba de fabricação caseira |
Educação para a memória e utilidade pública
Compreender o que ocorreu há cinco décadas é um exercício de cidadania. O prédio da ABI, localizado na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no centro do Rio, permanece como um símbolo de resistência. Para os interessados em aprofundar o conhecimento sobre a história da imprensa no Brasil:
1. Acesse arquivos digitais: Consulte o portal *Memórias Reveladas* do Arquivo Nacional para pesquisar documentos oficiais sobre o período.
2. Visite exposições: A ABI mantém um acervo vivo; acompanhe as redes oficiais da instituição para exposições sobre a história do jornalismo brasileiro.
3. Reporte ameaças: A liberdade de imprensa é garantida pela Constituição de 1988. Caso identifique violações ou ataques a jornalistas, denuncie a órgãos competentes, como o Ministério Público Federal.
4. Participe de atos: Acompanhe as solenidades de memória, como o ato no sétimo andar da sede da ABI, que reforça a luta pelo Estado Democrático de Direito.
Perguntas Frequentes
Qual foi o objetivo dos atentados contra a ABI em 1976?
O objetivo era intimidar a imprensa e impedir o processo de abertura política. Grupos radicais, como a AAB, viam na ABI um bastião da democracia e dos direitos humanos, o que contrariava os interesses da linha dura da ditadura militar da época.
Por que o caso da ABI é considerado um exemplo da vigilância do SNI?
Documentos disponibilizados pelo Arquivo Nacional revelam que o Serviço Nacional de Informações acompanhava reuniões e decisões da ABI com precisão alarmante. Isso demonstra que o aparato de repressão não apenas investigava crimes, mas monitorava o pensamento político de instituições civis organizadas.
O que a ABI faz hoje para preservar essa memória?
A instituição atua na publicação de boletins especiais, organização de acervos históricos e na realização de atos públicos. No dia 19 de agosto, a ABI coloca placas de repúdio ao terrorismo e reafirma sua posição como “Casa do Jornalista”, mantendo-se vigilante contra qualquer ameaça ao Estado Democrático de Direito.
