As plantações de soja no Brasil enfrentariam uma queda de até 55% na produtividade caso ficassem sem proteção contra ervas daninhas, pragas e doenças, conforme aponta um estudo conduzido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em parceria com a Croplife Brasil, associação que reúne empresas de melhoramento genético, biotecnologia e defensivos agrícolas.
Resumo rápido:
- Estudo da UFV indica queda de 55% na produtividade da soja sem manejo fitossanitário.
- Falta de controle pode gerar impactos na inflação e nos preços de derivados e carnes.
- Uso de defensivos químicos no país cresceu 4,4 vezes entre 2003 e 2023, segundo o Ipea.
Cenários de produtividade na agricultura nacional
As lavouras brasileiras de soja podem sofrer reduções drásticas na produtividade caso o manejo fitossanitário seja totalmente descontinuado, segundo simulações apresentadas pela pesquisa da UFV, que avaliou nove plantas daninhas, cinco pragas — como a mosca-branca — e quatro doenças, incluindo mancha-alvo e ferrugem-asiática.
Os pesquisadores simularam três situações distintas para o cultivo: plantações sem nenhum controle fitossanitário, lavouras com controle parcial (que asseguraria até 40% de proteção) e cenários com controle ótimo, capaz de garantir 80% de proteção. No modelo de controle ótimo, a produtividade estimada alcança 72 sacas por hectare. Com o controle parcial, o rendimento cai para 52 sacas — uma retração de 28% em comparação ao patamar ideal. Já no cenário sem nenhum tipo de manejo, a colheita despenca para apenas 32 sacas por hectare.
Para suprir o volume que deixaria de ser colhido na hipótese de ausência total de manejo, o país precisaria incorporar uma área adicional de 33,5 milhões de hectares ao cultivo, extensão equivalente a quase todo o território do estado de Goiás. Em termos de volume, a perda média em um cenário sem controle atingiria 121,3 milhões de toneladas, quantia avaliada em R$ 223,5 bilhões.
Reflexos na economia e nos preços ao consumidor
A redução na oferta do grão tem potencial para gerar impactos diretos sobre a inflação e sobre o custo de diversos itens alimentares essenciais na mesa da população brasileira. O estudo aponta que a receita gerada com as exportações de soja, simulada em US$ 44,2 bilhões sob o patamar de controle ótimo, recuaria para US$ 26,6 bilhões na ausência de manejo, resultando em uma diferença potencial de US$ 17,6 bilhões a cada safra.
Além do mercado externo, o encarecimento da produção interna afetaria o consumidor final. A menor disponibilidade de soja elevaria o preço do produto em até 49%, provocando uma alta estimada de 0,26 ponto percentual na inflação oficial medida pelo IPCA, visto que o grão integra a cadeia produtiva de alimentos como óleo, leite, ovos e carnes suína e de frango.
“Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço da carnes, carnes de porco, de frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja”
destaca a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho
Métodos de manejo e o consumo de defensivos
Para mitigar perdas nas lavouras, o setor agrícola recorre a quatro principais métodos de controle fitossanitário: o melhoramento genético, a biotecnologia — que engloba organismos geneticamente modificados —, os bioinsumos e os defensivos químicos, além de estratégias de manejo integrado que combinam duas ou mais dessas abordagens.
Contudo, a utilização de defensivos químicos, comumente chamados de agrotóxicos, gera debates sobre riscos ambientais e de saúde pública. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicou que o consumo dessas substâncias no Brasil cresceu 4,4 vezes entre 2003 e 2023, saltando de 180 mil toneladas para 800 mil toneladas anuais. Os dados colocam o país na liderança do uso por hectare plantado, com índice de 10,9 kg/ha, volume superior ao registrado em países como Estados Unidos (2,85 kg/ha) e China (1,9 kg/ha). A soja, o milho e a cana-de-açúcar concentram juntos 76% do consumo total de defensivos no país.
“Os defensivos químicos podem apresentar riscos à saúde humana, incluindo efeitos agudos e crônicos, dependendo da toxicidade das substâncias e dos níveis de exposição. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos e afetar organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, com consequências para a biodiversidade”
alerta o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Robson Barizon
O pesquisador também aponta que os organismos geneticamente modificados exercem dupla influência no setor: enquanto algumas plantas modificadas dispensam o uso de defensivos por possuírem imunidade natural a pragas, outras variedades tolerantes a herbicidas podem incentivar os produtores a intensificar a aplicação dessas substâncias para eliminar ervas daninhas.
“No caso dos OGM, aprovados para comercialização, não existem evidências científicas robustas de riscos adicionais à saúde humana associados ao seu consumo. Os possíveis impactos ambientais estão relacionados principalmente às características da modificação genética e às práticas agrícolas associadas, como o uso intensivo de herbicidas em culturas tolerantes…”
complementa Barizon sobre as tecnologias aplicadas ao campo
Perguntas Frequentes
Qual seria a queda na produtividade da soja sem proteção?
Segundo o estudo da UFV, as lavouras de soja no Brasil registrariam perdas de até 55% na produtividade caso ficassem totalmente desprotegidas contra pragas, doenças e ervas daninhas.
Como o uso de defensivos químicos evoluiu no Brasil?
Dados do Ipea apontam que, entre 2003 e 2023, o consumo anual de defensivos químicos no país cresceu 4,4 vezes, passando de 180 mil toneladas para 800 mil toneladas.
Quais culturas concentram o maior uso de agrotóxicos?
De acordo com o levantamento do Ipea, a soja, o milho e a cana-de-açúcar respondem por 76% de todo o consumo de defensivos agrícolas no território nacional.
